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seg, 22 abril 24

Ritchie celebra os 40 anos de ‘Menina veneno’ com show em BH

Em comemoração aos 40 anos de lançamento do seu álbum "Voo de Coração" e convida um "Dream Team" para dividir esta grande empreitada.

“Por onde anda o cantor Ritchie?”. A pergunta, uma das mais pesquisadas sobre o inglês Richard David Court, de 71 anos, no Google, tem resposta imediata: dia 20 de abril, ele estará no palco do Palácio das Artes, com o show “A vida tem dessas coisas”. É a turnê que vai passar por pelo menos dez cidades celebrando os 40 anos da música que impulsionou o “Voo de coração” do artista até o sucesso, no início dos anos 80. Que habitué de caraoquê nunca cantou “Menina veneno” a plenos pulmões? Se não, ao ouvir o maior hit de Ritchie, certamente se perguntou qual é a verdadeira cor do abajur da música. Mas o que é real no clássico?

O cantor detalhou curiosidades, relembrou histórias e revelou uma segunda faceta pouco ou nada conhecida do grande público: quando não está fazendo música, se dedica ao ilusionismo e ao mentalismo. “Faço mágica e leio pensamentos. Durante a pandemia, exercitei muito. Mas tenho fascínio por isso desde menino. E vou apresentar um pouco do que sei nessa turnê. A premissa de um show é que seja uma celebração do som, mas eu quero que também pareça uma enorme ilusão de ótica. Que olhem para o palco e se perguntem: ‘O que é isso que estou vendo?’”, adiantou, enigmático.

Ao final da longa entrevista, o sol já havia se posto. Sob a luz do abajur cor de carne de sua sala de estar, o cantor propôs a esta repórter um teste de clarividência por meio das Cartas de Zener. Criadas em 1920 pelo parapsicólogo americano Joseph Banks Rhine para medir a percepção extrassensorial (PES), elas trazem cinco desenhos: um círculo, uma cruz, um trio de linhas onduladas, um quadrado e uma estrela de cinco pontas. Já à mesa de jantar, depois de embaralhar e cortar o montinho de dez cartas por diversas vezes, com os desenhos voltados para baixo, eu precisava usar a minha intuição para formar os cinco pares de desenhos iguais.

“Eu faço esse teste com músicos, quando vou montar uma banda, para entender o quanto são intuitivos, propensos a fazer escolhas certas. Acertar um par é comum. Dois pares, começa a me chamar atenção. Cinco, é muito, muito difícil, só duas pessoas que testei até hoje conseguiram. Trata-se de uma em 3.125 chances de acontecer”, anunciou Ritchie.

Advinhem! Tive 100% de aproveitamento. “Inacreditável! Olha, Naiara, você tem uma intuição extremamente elevada. Para todas as decisões que tomar na vida, confie no seu feeling. Na clínica do doutor Zener, ele diria: ‘Temos uma pessoa paranormal aqui’”, sugeriu, para a minha surpresa. Surpreenda-se agora você com a entrevista a seguir!

“Quando eu e Bernardo Vilhena (coautor) começamos a escrever a música, eu estava lendo o livro ‘O homem e seus símbolos’, de Jung, em que ele fala sobre a donzela venenosa. Ao mesmo tempo, Bernardo desceu a serra de Petrópolis atrás de um caminhão em cuja placa se lia ‘Menina veneno’. Então, a gente começou a esboçar quem seria essa figura feminina. Eu quis ir por esse caminho da psicanálise, da imagem onírica da devoradora de homens. Na minha concepção, ela vem em sonho, não é de carne e osso. Mas cada um interpreta como quer”.

O abajur cor de carne

“Para alguns, é vermelho, como a carne crua. Para outros, é da cor da pele humana. Esse abajur de tal cor é citado pela atriz alemã Marlene Dietrich em seu livro de memórias. Ela se hospedou no Copacabana Palace em 1959 e escreveu cartas para amigos, dizendo estar encantada com os abajures ‘flesh tone’ do hotel. Traduzindo, seria ‘um abajur cor da pele’, mas não soava bem. ‘Carne’ é mais quente, trouxe uma carga de erotismo à canção. E é um termo enigmático por si só. Só de fazer a pessoa parar pra pensar que cor é essa já é ótimo. É incrível que, 40 anos depois, ainda perguntem qual é a cor do abajur”.

Cor de carmim?

“Eu gosto de dizer, ironicamente, que as pessoas que cantam ‘cor de carmim’ têm sangue de barata. Porque o carmim é feito da cochonilha, um inseto (risos). Seria errado dizer ‘cor de carmim’, algo como ‘cor de verde’. Carmim já é uma cor. Os homens pensam logo em churrasco ou um abajur com tiras de bacon. Aí eu retruco: ‘Se eu falasse que o abajur é laranja, você iria pensar em rodelas da fruta penduradas nele?’. As pessoas levam para lugares que a gente nem imagina. A canção deixou de ser minha e do Bernardo no momento em que a gente a botou na bolacha (disco de vinil) e o público comprou. Obviamente, cobramos os nossos direitos autorais. Mas a música não pertence mais a quem fez, mas a quem ouve. Este é o verdadeiro intérprete da canção”.

“Uma decoração tal qual sugere a música deve ser um horror (risos)! Tem gente que fala: ‘Ah, é um quarto de motel, entendi tudo!’. Essa mistura do abajur cor de carne com o lençol azul e as cortinas de seda ocorreu por uma série de fatores. Um deles é a rima para ‘corpo nu’. Das cores, a mais próxima era o azul. Naquela época, tanto no Copacabana Palace quanto na minha casa o lençol da cama era de um algodão finíssimo, azul celeste. E as cortinas de seda… Eu tenho umas no meu quarto que são de cetim, parecem sedosas. Não que tivessem sido a inspiração, mas não é algo tão exótico”.

Por que virou hit?

“O sucesso de ‘Menina veneno’ tem a ver com a fantasia que ela provoca. Não tem nada explícito ali, tudo é misterioso. De onde surgiu essa mulher? Quem ela é? Por que o cara não sabe o nome dela? E quem é ele? Por que quando ele se olha no espelho os olhos dela refletem? Ele está sozinho? Ele está delirante? Caetano Veloso, certa vez, me falou que, pra ele, a música era sobre um viciado em heroína. Eu achei interessante um poeta ter essa interpretação nua e crua. O sucesso fugiu ao mundo da música. Tem prostíbulo chamado Menina Veneno. Existe dedetizadora com esse nome. Deram esse apelido para a ex-ministra da agricultura (Tereza Cristina), que liberou os agrotóxicos. É um nome polivalente”.

“Vou mostrar músicas de toda a carreira, não só os sucessos. É claro que vão ter muitas canções de ‘Voo de coração’, que é o meu primeiro disco e o que vendeu mais. Foram cinco ou seis hits. E incluí ‘Shy moon’, que gravei com Caetano, agora com novo arranjo, mais progressivo. É um momento mágico no show. E preparei homenagens especiais. Por exemplo, aos Mutantes. Porque foi Rita Lee que me trouxe ao Brasil. Ela estará presente, só não vou adiantar como”.

Rita Lee

“Na primeira autobiografia da Rita, ela escreveu: ‘Eu trouxe um inglês bonitinho pra cá na bagagem’ (risos). Não foi bem assim, porque ela voltou ao Brasil antes de mim, eu vim uns dois meses depois, pra surpresa dela, inclusive. Eu conheci ela e o Liminha (produtor musical) em Londres, a caminho do País de Gales. Eu era hippie nessa época, não tinha dois tostões no bolso pra esfregar um no outro. Tinha 21 anos e não queria saber de estudar, só pensava em fazer música. Meu sonho era ser um beatle. Aí minha madrinha de crisma me presenteou com 250 ações de uma loja de departamentos valorizada da Inglaterra. No dia seguinte, fui ao banco e peguei o dinheiro das ações, que deveriam ser uma espécie de fundo pra minha vida, e comprei passagem pro Brasil. Rita, de certa forma, foi a minha fada madrinha”.

“De cara, eu adorei o jeito brasileiro. Que gente alegre, que povo maravilhoso! Eu estava acostumado a viver entre ingleses, que são meio distantes. Fiquei morando em São Paulo de favor na casa de músicos amigos durante um ano, aprendendo a falar as primeiras palavras em português. Na casa do guitarrista da banda, eu dormia no sofá da sala. Acordava cedinho e ligava a TV em preto e branco para assistir a ‘Vila Sésamo’, com Sonia Braga jovenzinha apresentando. Eu aprendia o bê-a-bá, como criança, com os bonequinhos e com essa deusa. E ficava repetindo propagandas da televisão. Diferentemente da Inglaterra, onde elas passavam uma ou duas vezes por dia, aqui era de cinco em cinco minutos. Eu não sabia nem o que estava falando. Ouço gente dizer que curte o meu som há 40 anos e não sabia que eu não era brasileiro. Pô, missão cumprida! Que elogio maravilhoso!”.

Dificuldade com aprendizado

“Fui aprendendo a falar português de ouvido, assim como faço música. Não sei ler partituras, sou analfabeto nisso. Todo o meu conhecimento musical vem do que aprendi em corais de igreja, dos 5 aos 19 anos. Eu tinha enorme dificuldade com aprendizado em várias matérias. Na época, não se sabia o que era isso, hoje em dia a gente fala sobre determinados graus de autismo. Reconheço que estou em algum lugar no espectro. E todo mundo tem. Não somos loucos, a gente só vê o mundo de outro jeito. Eu não saberia ser outra coisa senão músico. Até tentei ser bibliotecário, mas durou só uma semana”.

 

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