Diz o ditado italiano “anni, amore e bicchiere non contano mai”, não há como contabilizar ou mensurar o prazer de estar vivo, presente! E esse é o tom que a Confraria Viva, uma confraria de mulheres dinâmicas de Minas Gerais trouxe para seu aniversário de um ano de existência através de um jantar realizado dentro de uma galeria de arte.
Tempo e arte dão sentido aos passos de uma interessante degustação, com harmonizações impecáveis do início ao fim. Recepcionados pelo quadro no estilo “Hamlet” assinado pelo artista Diogo Duar, os convidados da confraria já seriam introduzidos à filosofia de “ser ou não ser eis a questão”. Essa filosofia nos apresenta como é importante valorizar os pequenos detalhes, pequenos momentos de cada experiência. E já na primeira taça de um refrescante vinho rosé com linda cor que ia de “pétala de rosa ao pêssego”, os sentidos foram convidados a estar aflorados… vividos e atentos.
“Ter repertório artístico é ter mais lentes para enxergar o mundo” assim Theo, anfitrião da J&J Art Gallery ia apresentando seu espaço. Nas paredes obras de Yara Tupinambá iam conquistando os olhares, trazendo ao mesmo tempo multiculturalismo e os conceitos da “Villa mineira” tão presentes nos seus quadros. Inclusive a escolha da Confraria pelo menu Origini, homenageava a Itália e o conceito de Villa italiana, que se evidência nos vinhos tão regionais e únicos. Isso casou como uma luva com os quadros de Yara. “Veja aí nesta obra, a boneca de argila do jequitinhonha, recordando um sonho onírico, com um vaso de flor e um bule em primeiro plano, objetos da casa de Yara, isso é pura conexão com o sentimento italiano de casa, caseiro, pertencimento” define Theo enquanto gira a taça de vinho rosé, refrescante, jovem, com acidez viva, fruto de uma curta maceração.

Aos poucos os convidados iam chegando, a sua maioria mulheres, uma vez que a confraria é feminina e pela primeira vez abria a porta para os “representantes de marte”. Estar em um ambiente mais feminino é se ater aos detalhes, únicos, sensoriais, pensados em meticulosa harmonia estética. Só para se ter ideia, Sibila Amaral, uma das organizadoras da Viva, escolheu como um pequeno brinde a ser dado aos convidados, uma “wine-cap” que trazia Davi de Michelangelo em sua composição artística. “Imagino em alguns dias alguém bebendo vinho e usando esse pequeno mimo como detalhe… espero que abra um sorriso” destaca Sibila.
Hoje o tempo compartilhado é considerado um verdadeiro luxo, estamos sempre olhando o relógio de 5 em 5 minutos, e a proposta da harmonização do vinho e arte pede uma desaceleração, pede estar com pessoas, pede uma mesa posta, pede uma conversa longa onde o próprio ritual do vinho trará prazer e aprendizado. John Locke dizia “o conhecimento nasce da experiência”. E a vivência da segunda taça servida trouxe essa experiência. Gilda um espumante extra brut de uvas malvasias trouxe os aromas da Lombardia ao salão da J&J Art Galery. As leves borbulhas finas e suas notas de maçã verde combinaram de forma intensa com o primeiro prato, um saboroso creme de fungui e notas de trufas, terroso, untuoso..elevando a soma dos sabores e aromas com sua acidez…
O chef Bruno Albergaria assina o menu, e brilhou do início ao fim. Este seu creme de fungui trufado trouxe até uma nota de pão tostado, que é presente na levedura que fermentou o espumante Gilda. O brinde das taças, batendo uma nas outras foi a forma de agradecer ao chef e sua equipe. “Um brinde é sempre um momento especial, olhamos nos olhos de quem nos olha, sorrimos e sentimos a presença uns dos outros, isso é muito único, isso é viver” detalha Cibele Faria, idealizadora do projeto Viva. Cibele inclusive descreve que o nome da confraria se deu pelo sentimento de “viver”, sentimento bom de dividir com amigas o prazer de estar juntas. “Viver é uma arte, como diz a música, é preciso estar atento, para degustar o prazer de estar vivo”.

E no decorrer da degustação a arte não passou despercebida, não era simples entretenimento, não era coadjuvante. “Quando alguém se engaja com a arte está exercitando suas emoções, dando forma à novas realidades” define Theo. A obra de Yara nas paredes, colorida, mineira, vivida, trouxe até mesmo emoção na degustação do terceiro vinho da noite. Bosco di Pietra um vinho da uva Friulana, vinda dos Alpes Julianos, das terras de argila de Marga, no norte da Itália. Este vinho expressa o retorno de uma família de imigrantes italianos a sua região de origem lá na Itália, após 160 anos no Brasil a família busca novamente sua origem e produz esse interessante vinho branco com notas de minerais, flor do campo como camomila e final de amêndoas. Na harmonia com o açafrão presente no risoto a milanesa abriu o bouquet, trazendo riqueza na “mordida da textura” de frutos do mar que acompanhava o risoto. “Eu gosto mais de arte histórica… folclórica, real, história dos povos, das pessoas, a arte me traz sentimentos de uma volta no tempo” destaca Raquel Fernandes, advogada presente na noite.
O que acontece quando encontramos a beleza? Você já se fez essa pergunta. No mundo das artes o encontro da beleza, traz conforto, prazer, segurança. E assim o “Rei dos vinhos e vinho dos reis” adentrou no salão. Barolo, fruto da uva nebiollo a uva das névoas do Piemonte. Frutas negras, nuances de geleia, notas de violeta, tabaco, couro…eram sentidas. O prato de Brasato marinado por dias pelo chef Albergaria harmonizou completamente com o vinho trazendo a essência do tanino firme que neutraliza a gordura, abrindo os detalhes do amadeirado do vinho. “Pensei nesta combinação por causa do carvalho usado no amadurecimento do vinho, os legumes do marinado iriam criar uma ponte entre prato e taça” destaca o chef com brilhantismo único.
Entre esculturas com forma cubista e artes italianas, as paredes de J&J apresentavam algumas peças de Comédia del Arte, Carnaval de Veneza…a Itália viva. Arlecchino traz seu olhar ágil e apaixonado. Colombina esperta e romântica em tons esverdeados de esmeralda… Pierô com seu ar misterioso, esconde algum segredo. As obras de Diogo Duar foram pano de fundo da degustação final. Marsala um vinho doce diretamente da Sicília, sul da Itália. Vinho dourado com reflexos âmbar e brilhantes notas de figo seco e caramelo traziam uma combinação “redonda” com o doce de Tiramisu. As próprias uvas da fabricação deste vinho, Grillo, Cataratto e Inzolia, traduzidas do grego trazem: abundância, riqueza e dourado de ouro. Adjetivos que podemos dar a obra de Duar e também a deliciosa noite que vivemos. “Achei interessante ouvir sobre a arte, os vinhos, os detalhes… É como uma visita guiada a um museu, um aprendizado, com leveza e propósito, isso é muito gostoso” destaca Aline Saldanha, uma das convivas da Confraria.
Um tenor cantou ao vivo. Fazendo ressoar suas notas potentes nas paredes. As taças eram agitadas, os aromas eram compreendidos. A música envolvia as almas e os sorrisos como na letra de “la notte parla dolcemente”.
Como se diz no teatro – O grande espetáculo está no simples, no detalhe invisível aos olhos, na delicadeza que envolve e encanta. E a atmosfera da confraria Viva, encanta!
Taças, tilintares, brindes, sorrisos, contemplação da arte… deram sentido aos passos desta jornada! Tim-tim… ou em bom italiano Auguri! Auguri!



