Por Raquel Santiago
Pontualmente às 21h05, as luzes da Arena MRV se apagaram. Bastaram os primeiros acordes para que o estádio se transformasse em um grande coro. Era o início de “Djavanear – 50 anos”, turnê em que Djavan celebra cinco décadas de uma das carreiras mais consistentes da música brasileira sem abrir mão da delicadeza, da sofisticação e da capacidade de emocionar.
Durante duas horas e meia de apresentação, o cantor conduziu o público por diferentes momentos de sua trajetória, acompanhado por uma banda de excelência e por um espetáculo de luzes em tons de vermelho, laranja e amarelo, que dialogava com a atmosfera de cada canção. Aos 77 anos, Djavan impressionou pela potência da voz, pela afinação e pela elegância com que ocupa o palco.
Na Arena MRV, sucessos como Sina, Meu Bem Querer, Oceano, Te Devoro, Teu Olhar, Lilás, Samurai, Flor de Lis, Açaí e O Vento transformaram a apresentação em um grande encontro entre artista e plateia. Em um dos momentos mais delicados da noite, Djavan deixou a grandiosidade do palco de lado, sentou-se ao violão e criou uma atmosfera intimista, aproximando ainda mais o público de sua obra.
Mas o espetáculo foi além da música. Djavan conversou com a plateia, fez confidências, sorriu, sambou e se emocionou ao revisitar passagens da própria trajetória. Nem o frio da noite mineira passou despercebido: em determinado momento, voltou ao palco usando luvas, arrancando sorrisos do público.
Entre os momentos mais emocionantes da apresentação esteve a homenagem a Milton Nascimento, o eterno Bituca, recebida com entusiasmo pelo público mineiro. Na sequência, Djavan reverenciou Gal Costa, a quem definiu como uma das maiores intérpretes de suas canções. O repertório também incluiu “Um Brinde”, composição recente que integra a turnê comemorativa, e o resgate de “Quase de Manhã”, canção do álbum Meu Lado (1986), apresentada em homenagem ao saxofonista norte-americano David Sanborn, que participou da gravação original.
No bis, antes da despedida, Djavan resumiu em poucas palavras a relação construída com Minas Gerais. “Voltarei sempre que vocês desejarem. Eu amo Minas.”
Música que atravessa gerações

Se no palco Djavan celebrou sua história, na plateia ela ganhou novos significados. A influenciadora Ana Carolina Batista Rocha Procópio, de 46 anos, acompanhou o espetáculo ao lado da filha, Giovanna Batista Procópio da Silva, de 14 anos.
Fã de longa data, Ana Carolina conta que a ligação com a obra do artista nasceu ainda na infância. “Eu sempre gostei de música de qualidade, daquelas que têm uma letra que faz sentido e uma melodia que toca a gente de verdade. O Djavan reúne exatamente isso. Além disso, a música sempre esteve muito presente na minha infância por causa da minha família. Ouvir Djavan também me traz essa lembrança boa, essa sensação de conexão com a minha história.”
Compartilhar esse momento com a filha tornou a experiência ainda mais especial “Quando a gente gosta de algo que fez parte da nossa vida e pode dividir isso com um filho é uma alegria muito grande. Ver a minha filha se emocionar e gostar das músicas também fez esse momento ter um significado ainda maior para mim.”
Para Giovanna, que conheceu o artista por influência da mãe, assistir ao show foi uma descoberta. “Eu já conhecia algumas músicas por causa da minha mãe, mas comecei a ouvir mais e fui gostando. O que mais me chamou a atenção foram as letras, que são muito bonitas, e o jeito diferente que ele canta.”
A experiência ao vivo superou as expectativas “Ver ao vivo é bem mais emocionante do que eu imaginava. A voz dele é incrível, a banda também. E ver todo mundo cantando junto foi muito legal.”
Cinquenta anos depois de iniciar a carreira, Djavan continua encontrando novos ouvintes sem perder aqueles que o acompanham desde o começo.
Quando a música também alimenta

A passagem de Djavan por Belo Horizonte também deixou um impacto social. Por meio do ingresso solidário, foram arrecadadas cinco toneladas de alimentos, entre arroz, feijão, macarrão, leite, açúcar, sal e fubá.
Os donativos serão distribuídos a lideranças da CUFA Minas e instituições parceiras que atuam diretamente em comunidades de Belo Horizonte e outras localidades atendidas pela organização. Segundo a coordenadora estadual da CUFA Minas, Giovana Sacramento, a logística da ação permitirá beneficiar mais de duas mil pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Para ela, iniciativas como essa demonstram o potencial transformador dos grandes eventos culturais. “Quando o público é convidado a contribuir com uma causa nobre, cria-se uma corrente de apoio muito forte. A cultura e a solidariedade caminham juntas.”
Ao reunir música, memória afetiva e solidariedade em uma mesma noite, “Djavanear – 50 anos” reafirma a força de uma obra que segue atual, emociona diferentes gerações e transforma um show em algo raro: um encontro entre passado, presente e futuro.



