Com apoio da ONU, evento reúne lideranças e pesquisadores para discutir como saberes
ancestrais podem fortalecer as respostas à crise climática
Entre 31 de julho e 2 de agosto, Ouro Preto e Mariana (MG) recebem o 3º Fórum Brasileiro
dos Direitos da Natureza, que reúne lideranças indígenas, comunidades quilombolas e
ribeirinhas, pesquisadores, juristas e organizações da sociedade civil para debater, entre
outros temas, o enfrentamento à crise climática a partir da experiência de quem vive no
território. A iniciativa se faz urgente porque, embora tenhamos produzido muito
conhecimento científico sobre a crise climática, ainda seguimos ignorando os saberes
tradicionais que há séculos protegem a vida nesses locais.
Durante muito tempo, nos acostumamos a imaginar que as respostas para a emergência
climática nasceriam de laboratórios, grandes conferências internacionais ou centros de
pesquisa. Sem diminuir a importância da ciência, é hora de reconhecer outra evidência:
muitas das soluções que o mundo procura já existem. Elas vêm sendo construídas há
gerações por povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas, extrativistas e tantos
outros grupos que aprenderam que cuidar da natureza é, antes de tudo, cuidar da própria
vida.
O Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas
(IPCC) reconhece que os conhecimentos indígenas e locais fortalecem a capacidade de
adaptação às mudanças climáticas e seguem sem ser considerados na formulação de
políticas públicas. Na mesma direção, a UNESCO destaca que esses sistemas de
conhecimento ampliam a resiliência das comunidades diante dos impactos climáticos e
constituem um patrimônio essencial para enfrentar os desafios do presente.
A resposta está numa lógica que, durante muito tempo, separou natureza e sociedade e
desvalorizou conhecimentos produzidos fora das universidades, dos centros de pesquisa e
dos espaços formais de poder. Continuamos procurando soluções inéditas enquanto
deixamos à margem experiências concretas que já demonstraram capacidade de proteger
pessoas, territórios e ecossistemas. Essa invisibilidade não é casual, é uma crise de
imaginação política.
É essa lógica que o debate sobre os Direitos da Natureza procura transformar. Reconhecer
rios, florestas e ecossistemas como sujeitos de direitos significa reconhecer que não existe
futuro possível se continuarmos tratando a natureza apenas como patrimônio econômico.
R. Marquês de São Vicente, 378 n 302 www.redeaponte.org
Rio de Janeiro – RJ [email protected]
No Brasil, essa agenda ganha força desde 2018, mais de 30 iniciativas de reconhecimento
dos Direitos da Natureza foram registradas no país, mostrando que a discussão já
ultrapassou o campo teórico e passou a produzir efeitos concretos na construção de
políticas públicas.
"O Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza reafirma a importância de reconhecer a
natureza como sujeito de direitos, fortalecendo caminhos para a proteção dos ecossistemas
e para uma relação mais equilibrada entre sociedade e meio ambiente." afirma, Giovanna
Souza, coordenadora estratégica do Fórum.
Quem vive no território aprende cedo aquilo que os indicadores ambientais costumam
confirmar mais tarde. Recuperar nascentes, proteger sementes crioulas, manejar o fogo de
forma tradicional, produzir alimentos respeitando os ciclos da terra, compartilhar a água em
períodos de escassez, restaurar áreas degradadas e fortalecer redes comunitárias de
cuidado são práticas construídas no cotidiano e transmitidas entre gerações.
É o caso do povo Krenak, que vive às margens do rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito
Santo. Na língua Krenak, o rio é chamado de Uatú, “grande irmão”, e é tratado como
parente, não como recurso. Depois que o rompimento da barragem de Fundão, em 2015,
contaminou suas águas com rejeitos de mineração, o povo Krenak passou a tratar a
recuperação do rio como parte de sua própria luta por existência, acompanhando a
qualidade da água, retomando práticas tradicionais de manejo do território e pressionando
pelo reconhecimento jurídico do rio Doce como sujeito de direitos. Nesse sentido, uma
ação chegou a ser movida na Justiça em 2017, demonstrando como saberes ancestrais e
respostas à crise ambiental caminham juntos na prática, oferecendo caminhos concretos
para a proteção da vida e dos territórios.
Mais do que reunir especialistas, o 3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza coloca em
diálogo quem vive essa realidade no cotidiano. As rodas de conversa, oficinas e atividades
previstas para os três dias de programação têm como eixo as práticas comunitárias:
tecnologias sociais de enfrentamento às mudanças climáticas, de proteção dos corpos e
dos territórios e de regeneração ambiental que já demonstram resultados concretos. O
encontro conta com apoio do Programa Harmony with Nature, da Organização das Nações
Unidas, e do Governo Federal, integrando uma articulação internacional voltada ao
fortalecimento dos Direitos da Natureza.
A escolha de Minas Gerais também é simbólica. Foi ali que o rompimento da barragem de
Fundão, em 2015, contaminou o rio Doce e, quatro anos depois, o desastre de Brumadinho
expôs novamente os impactos da mineração sobre pessoas, rios e ecossistemas. Ao
mesmo tempo, o estado abriga experiências pioneiras na defesa dos Direitos da Natureza:
em Porteirinha e Serranópolis de Minas, no Norte do estado, comunidades rurais que
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enfrentam décadas de seca se mobilizaram para aprovar leis municipais reconhecendo o
rio Mosquito como sujeito de direitos, do qual depende a sobrevivência de dezenas de
famílias da região. Reparação, memória e construção de novos caminhos coexistem no
mesmo lugar.
Escutar essas experiências é uma das formas mais concretas de enfrentar a emergência
climática, não porque substituam a ciência, mas porque demonstram que ciência, políticas
públicas e saberes ancestrais podem se fortalecer mutuamente. É essa convergência que o
3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza propõe: um espaço de encontro entre
diferentes formas de produzir conhecimento e de cuidar da vida. Em um momento em que
o mundo busca respostas para a crise climática, o Fórum lembra que muitas delas já estão
sendo construídas, há gerações, por comunidades que nunca deixaram de cuidar da terra.
Serviço:
3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza
Local: Ouro Preto e Mariana (MG)
Data: 31 de julho a 2 de agosto de 2026
Inscrições gratuitas: https://forms.gle/MErEiTP6uy4sXqdS6
Programação completa: https://forumdireitosdanatureza.org.br/agenda/
Mais informações: https://forumdireitosdanatureza.org.br/
Instagram: https://www.instagram.com/forumdireitosdanatureza/
Apoio: Programa Harmony with Nature (ONU), Governo Federal, prefeituras de Ouro Preto e
Mariana, UFOP
MAIS INFORMAÇÕES: NAHAMA NUNES – 11 98105 5422
