“Foi entre a guerra e o mercado consumidor que o plástico se tornou uma revolução em muitos aspectos”, diz em cena a atriz e arte-educadora Pamella Villanova. Ela é a protagonista do espetáculo Plástico, um mito contemporâneo, que, após estrear na Europa e reunir mais de 5 mil espectadores, chega agora a Minas Gerais. Serão duas apresentações: a primeira em Santa Luzia, em 28.05, em sessão exclusiva para escolas; no dia seguinte, 29.05, é a vez de Belo Horizonte, que recebe o espetáculo no tradicional Galpão Cine Horto, às 19h30. Nesta data, haverá interpretação em Libras, e os ingressos poderão ser retirados no local com 1h de antecedência.
Entre o humor e as máscaras sociais, a montagem convida o público a encarar de frente uma tragédia quase invisível: a presença do plástico, matéria abundante e cotidiana que sustenta hábitos de consumo, moldando a vida contemporânea. Em uma viagem poética pelo tempo e pela história desse material, a peça surge a partir da pesquisa desenvolvida por Villanova em seu doutorado em Artes da Cena na Universidade de Estadual Campinas (Unicamp). A equipe de criação é composta por professoras da referida instituição e da Universidade de Zaragoza, na Espanha, além do artista multidisciplinar Dudu Ferraz. Com a intenção de circular por diferentes espaços — como centros culturais, escolas, teatros e instituições — a obra busca provocar reflexões sobre os impactos ambientais e os limites do modelo atual de consumo, ainda que evitando tons acusatórios.
Conduzida por uma dona de casa que lava a louça enquanto mergulha em devaneios, a dramaturgia de Plástico se estrutura a partir do trabalho de cuidado e de situações rotineiras atravessadas pela poluição. Nesse percurso, busca-se despertar empatia e identificação no público. Inspirado nas proposições do teatrólogo Augusto Boal, referência na intersecção entre arte, política e educação, o texto evita um tom acusatório e aposta na construção coletiva da reflexão. Conforme tudo avança, personagens não humanas atravessam a cena para ampliar os pontos de vista sobre as contradições do consumo, do descarte e da vida contemporânea.
Trata-se também de uma experiência sensorial, em que, a cada apresentação, o público é convidado a se alongar no que Villanova define como “ginástica da imaginação”. “Trabalhamos a partir de uma ginástica do imaginário e de uma experimentação formal que se dá por meio da mediação cultural e teatral”, explica a criadora. “Ao longo da peça, compartilhamos códigos e construímos pactos com a plateia a partir desses exercícios de imaginação, até culminar em um exercício político que propõe pensar o fim do mundo versus o fim da poluição plástica”.
A principal premissa adotada em Plástico, um mito contemporâneo é a de fazer “o simples sem ser simplório”. Poucas exigências técnicas são estabelecidas de propósito, de modo que o espetáculo possa ser levado a diferentes contextos. Espaços municipais, festivais de teatro, congressos, escolas e fábricas já foram ocupados pela montagem. A intenção é a criação de um teatro que possa ser transportado em uma mala — parte do lugar em que a equipe se encontra é revelada em cena, ao mesmo tempo em que uma elaboração técnica é desenvolvida de forma cuidadosa.
Munida de objetos cênicos compostos por materiais reutilizados ou de segunda mão, bem como por objetos encontrados no local ou nas proximidades do espaço de apresentação, a obra busca explorá-los de modo a expandir seus significados a cada jogo cênico. Além disso, Plástico, um mito contemporâneo também se orienta pela acessibilidade. Com a consultoria de Maía Schiavinato Massei e Lucas Carvalho Ré, ambos pessoas com deficiência visual, a descrição de imagens e ações principais do espetáculo integra o texto enunciado pela protagonista. Agora em BH, esse recurso inicialmente voltado à inclusão se torna também uma estratégia para ampliar a percepção do público sobre cada imagem e significado.
“Ter a oportunidade de conhecer, visitar e compartilhar nossa criação artística em um espaço como o Galpão Cine Horto é uma honra. Este é um espaço referencial para nós, e reverenciamos toda a sua trajetória e práticas”, explica a atriz. “Em outros momentos, nós também já nos inspiramos em suas práticas para criar as nossas. Somos um ponto de cultura, e a ideia de conhecer a sede do Galpão como um espaço vivo, com acervo, biblioteca e visitas, nos inspira. Sempre tivemos curiosidade de entender as inteligências sociais e artísticas existentes aí, o que torna esse espaço-referência também um espaço vivo.”
Em cena e em sua própria concepção, Plástico reafirma o compromisso com uma criação conectada às urgências do presente, convidando o público a refletir sobre os modos de vida contemporâneos e suas materialidades invisíveis. O espetáculo é realizado pelo Ministério da Cultura, com patrocínio da Orizon, empresa que transforma resíduos em energia renovável e produtos sustentáveis. Por meio de ecoparques, a companhia trata resíduos de forma integrada, gerando biometano, energia elétrica, créditos de carbono e fertilizantes, com foco na economia circular — tema que dialoga diretamente com a proposta da montagem. Após percorrer o Cariri (CE), a circulação segue para outras capitais brasileiras, como Goiânia (GO) e Cuiabá (MT).
SOBRE PAMELLA VILLANOVA
Pamella Villanova é atriz e arte-educadora, doutoranda em Artes da Cena pela Universidade de Campinas (Unicamp), com doutorado-sanduíche na Faculdade de Filosofia da Universidade de Zaragoza, na Espanha. Em sua pesquisa de mestrado (Unicamp – FAPESP), articulou estudos de gênero com a mitologia grega de Helena em uma palestra-performance intitulada “Helena Vadia”, que circulou por treze estados brasileiros com baixo impacto ecológico. Atualmente, desenvolve investigações sobre possíveis teatros científicos e as problemáticas do lixo. Plástico, um mito contemporâneo, uma de suas criações mais recentes, estreou em 2023 e realizou apresentações na Colômbia, na Espanha, no interior de São Paulo e nos estados de Santa Catarina, Rio de Janeiro e Pernambuco, alcançando mais de 3 mil espectadores.
É diretora artística do Coletivo Passarinha, que promove ações de arte-educação voltadas à reflexão sobre a sociedade do consumo e do descarte. Atua também como gestora cultural do Ponto de Cultura Quintal Garatuja, em Campinas, espaço cultural indisciplinar que desenvolve ações em diálogo com redes de artistas da cidade e territórios vizinhos, como escolas e bosques. Com 25 anos de experiência em cena, realizou projetos como artista e gestora cultural financiados por editais federais, estaduais, municipais e iniciativas privadas, incluindo ProAC, FICC (Campinas), Prêmios da Funarte, Sesi-SP, Lei Rouanet, Lei Aldir Blanc e Lei Paulo Gustavo. Atua há 19 anos como arte-educadora, trabalhando com públicos de diferentes faixas etárias, da primeira infância à terceira idade, em escolas de teatro, instituições culturais e espaços formais de ensino.
SOBRE O ESPETÁCULO
A trajetória de Plástico, um mito contemporâneo vem sendo construída ao longo de anos, a partir da pesquisa de doutorado em Artes da Cena desenvolvida por Pamella Villanova na Unicamp, com intervenções realizadas no 14º Festival Internacional de Teatro de Campinas (XIV Feverestival) e junto ao Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro). A estreia ocorreu em abril de 2023, na Universidade de Zaragoza, na Espanha. Em seguida, o espetáculo circulou por diferentes cidades espanholas, incluindo Madrid (nos espaços La Horizontal e Esquina Nua), Barcelona (Festival Tudanza), Algairén (Festival Regenera) e Granada (encontros JIFFI da Universidade de Granada).
No Brasil, as primeiras apresentações se deram em espaços acadêmicos e de interesse ambiental, como o Encontro de Divulgação Científica e Cultural da Unicamp, a I Semana Lixo Zero de Campinas, o Unicamp de Portas Abertas (Museu de Ciências da Unicamp) e o evento de divulgação científica do Instituto de Física da Unicamp. Em 2024, Villanova recebeu por sua atuação o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Teatro de Mogi Guaçu. No mesmo ano, realizou circulação pelo interior de São Paulo em parceria com o Instituto Orizon Social, passando por diferentes contextos, como o aterro sanitário de Paulínia, o Teatro Municipal de Itapevi, a UNESP Sorocaba e ações junto à Secretaria de Educação de Tremembé.
Ainda em 2024, apresentou-se na PUC Campinas e na UDESC, em Florianópolis, integrando a programação do Seminário Fazendo Gênero 13. Também circulou pela Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, e pela Região Metropolitana de Recife, em Jaboatão dos Guararapes, em diálogo com secretarias de meio ambiente e espaços educativos de municípios que abrigam aterros sanitários. No mesmo ano, realizou uma curta temporada no Ponto de Cultura Quintal Garatuja.
Em 2025, Plástico passou pelo SESC Presidente Prudente, como parte da Feira de Pequenos Produtores da instituição. Também realizou apresentações em canteiros de obras e fábricas no estado de São Paulo, além de integrar a programação do II ELLAS – Encuentro de Artistas Latinoamericanas, em Cali (Colômbia), do 37º SLAMC – Semana Luiz Antônio Martinez Corrêa, em Araraquara, do Encontro Nacional de Engenharia Química na Unicamp e do Quizomba – Festival de Culturas Populares de Londrina (PR). Agora, em maio de 2026, chega pela primeira vez a Minas Gerais.
SERVIÇO COMPLETO
Espetáculo Plástico, um mito contemporâneo
Santa Luzia (28.05 | 15h)*
Teatro Municipal Antônio Roberto de Almeida
Rua Direita, 373 — Centro Histórico, Santa Luzia/MG
*Sessão exclusiva para escolas
Belo Horizonte (29.05 | 19h30)
Galpão Cine Horto
Rua Pitangui, 3613 — Horto, Belo Horizonte/MG
Ingressos com retirada 1h antes do espetáculo na bilheteria do teatro.
Haverá interpretação em Libras.

