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CCBB BH mergulha na arte afro-brasileira

Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira reúne mais de 150 obras, sendo 39 delas produzidas por artistas mineiros como Gustavo Nazareno, Josi, Massuelen Cristina, Marcel Diogo, Marcus Deusdedit, Priscila Rezende, William Lima (Will) e a homenageada Maria Auxiliadora; mostra abre em 25 de maio e pode ser conferida até 05 de agosto deste ano

Ao longo de séculos é a visão do branco que, repetida incansavelmente, costuma figurar nos livros, nas salas de aula e nas exposições. A partir de 25 de maio, um outro lado da história começa a ser contado na mostra Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira, no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte. Das mais de 150 obras apresentadas, 39 são de artistas mineiros. O acervo é composto por pinturas, fotografias, esculturas, instalações, vídeos e documentos, abordando uma variedade de temáticas, técnicas e descritivos.

Depois do sucesso na temporada de São Paulo, com mais de 100 mil visitantes, a mostra, patrocinada pelo Banco do Brasil e BB Asset Management e produzida pela Tatu Cultural, chega a Belo Horizonte ainda mais completa. A começar pela presença de mais uma artista mineira entre os 62 selecionados pela curadoria. Massuelen Cristina se junta a Gustavo Nazareno, Josi, Marcel Diogo, Marcus Deusdedit, Priscila Rezende, William Lima (Will) e Maria Auxiliadora – principal representante de um dos cinco eixos da exposição.

Outra novidade da montagem de Encruzilhadas em Belo Horizonte é a inclusão de dois trabalhos originais de Rubem Valentim, pertencentes ao acervo do Museu Afro Brasil, e a reunião de três trabalhos de Arthur Timótheo da Costa, sendo dois deles procedentes do Museu Afro Brasil e um da Pinacoteca de São Paulo. Já no pátio do CCBB, obras emblemáticas provocam a atenção do público: “Bandeira Mulamba” (2019), do artista Mulambö, e um trabalho inédito de Massuelen Cristina, composto por fotos e faixas com grafismos.

“Excetuando os destaques do pátio central, a totalidade da mostra ocupa um mesmo andar, em percurso contínuo, permitindo uma compreensão mais fluida do pensamento curatorial”, explica Deri Andrade, curador da exposição. “O acervo e sua organização propõem um diálogo transversal e abrangente da produção da arte afro-brasileira de todos os cantos”, explica.

Pesquisador e jornalista, Deri ocupa a posição de curador assistente no Instituto Inhotim e criou a plataforma Projeto Afro (projetoafro.com) de mapeamento e difusão de artistas negros da cultura afro-brasileira. Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira é um desdobramento do Projeto Afro, em desenvolvimento desde 2016 e lançado em 2020, que hoje reúne cerca de 300 artistas catalogados. São nomes que abarcam um vasto período da produção artística no Brasil, do século 19 até os contemporâneos nascidos nos anos 2000. “A exposição oferece outras referências e um novo olhar da arte nacional aos visitantes”, afirma o curador. “A história da arte do Brasil apaga a presença negra e o artista negro do seu referencial”, completa.

O trabalho de pesquisa por trás da exposição nasceu do desejo e, na sequência, da frustração de Deri Andrade de não encontrar muitas referências em torno da arte afro-brasileira no Brasil. Ao se debruçar em publicações, materiais de outras exposições (a exemplo de várias com curadoria de Emanoel Araujo nos anos 90, que mais tarde viria a se tornar diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e criar o Museu Afro Brasil) e inúmeras pesquisas para o mapeamento de artistas negros e suas obras pelo Brasil, Deri Andrade iniciou um minucioso projeto de catalogação de uma arte que, por vezes, foi marginalizada pela sociedade.

“Ser artista acho que já é difícil, ser artista negro no Brasil é ainda um pouco mais complicado”, afirmou Sidney Amaral (São Paulo, SP, 1973/2017), em 2016, ao ser entrevistado pelo projeto AfroTranscendence. Desde então, esse pensamento do artista acompanha Deri, que dedica parte de seu tempo a conhecer e investigar a produção artística de autoria negra no Brasil.

Uma exposição em cinco eixos

Cinco eixos, cinco artistas. Assim foi desenhada a exposição que, a partir de cinco nomes centrais, revela diferentes épocas e discussões, contextos, gerações e regiões. De grande abrangência, a mostra percorre do período pré-moderno à contemporaneidade e discute eixos temáticos em torno de artistas negros emblemáticos: Arthur Timótheo da Costa (Rio de Janeiro, RJ, 1882-1922), Rubem Valentim (Salvador, BA, 1922- São Paulo, SP, 1991), Maria Auxiliadora (Campo Belo, MG, 1935 – São Paulo, SP, 1974), Mestre Didi (Salvador, BA, 1917- 2013) e Lita Cerqueira (Salvador, BA, 1952).

Cada um dos nomes acima lidera, respectivamente, um eixo: Tornar-se, sobre a importância do ateliê de artista; Linguagens, que aborda os movimentos artísticos; Cosmovisão, a respeito do engajamento político e direitos; Orum, sobre as relações espirituais entre o céu e a terra, a partir do fluxo entre Brasil e África; por último, Cotidianos, que aborda as discussões sobre representatividade.

A exposição conta ainda com trabalhos comissionados assinados por Gustavo Nazareno (Três pontas/MG), Lídia Lisboa (Guaíra/PR), Elidayana Alexandrino (Coremas/PB), Helô Sanvoy (Goiânia/GO), Massuelen Cristina (Sabará/MG) e Rafael Bqueer (Belém/PA). A primeira obra da coleção do Projeto Afro, do artista Vitú de Souza (São Paulo/SP), também compõe a mostra.

Figuras centrais

No primeiro eixo, o público confere a arte de Arthur Timótheo da Costa, cuja produção transita entre os séculos XIX e XX, e expõe a relação do artista com seu ateliê, com a pintura, com a fotografia e com artistas que se autorretratam. Seus traços revelam certa dramaticidade e evoluem para uma obra pré-modernista.

Rubem Valentim, homenageado na seção 2, é considerado um mestre do concretismo brasileiro, e propõe uma discussão sobre forma e elementos religiosos. Iniciou a carreira produzindo de natureza-morta a flores e paisagens urbanas e enveredou para o uso de símbolos e emblemas geométricos de religiões de base africanas.

O eixo 3 é dedicado à mineira e autodidata Maria Auxiliadora, que encanta pelo uso das cores em seus retratos, autorretratos e festas religiosas. Mas não só. Sua obra carrega uma discussão mais política, engajada no debate sobre moradia, territórios, segurança alimentícia e direitos da população negra.

S/Título (1973), produzida pela artista mineira Maria Auxiliadora | Imagem: Estudio em obra

Mestre Didi, na seção 4, foi artista e sacerdote, revelando muito da espiritualidade e da relação Brasil/África em seus trabalhos. Sua obra também é marcada pelo uso de materiais naturais, como búzios, sementes, couro e folhas de palmeira e trata bastante das afro-religiosidades a partir das relações entre Brasil e África.

No último eixo, a artista central é Lita Cerqueira, única ainda viva dentre os cinco nomes-chave da exposição. Aos 71 anos, se consagra como uma das mais importantes representantes da fotografia brasileira, com reconhecimento internacional. Iniciou a carreira capturando imagens de festas populares da Bahia, da capoeira e detalhes da arquitetura do centro histórico de Salvador. Logo depois, enveredou para a fotografia cênica, realizando importantes registros de músicos de sua época, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa.

Em cartaz até 05 de agosto de 2024, Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira oferecerá ainda laboratórios e oficinas e contará com um espaço próprio do Projeto Afro, no qual o público poderá consultar materiais de pesquisa e acessar a plataforma. Fique atento à programação do CCBB Belo Horizonte, em ccbb.com.br/bh.

EDITAL

A exposição foi contemplada no último edital de patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil 2023-2025, realizado no primeiro semestre de 2023, que aprovou projetos com temas e abordagens alinhados aos pilares conceituais definidos para essa seleção: pluralidade cultural, identidade, multidisciplinaridade, diálogos e novos olhares. “O Banco do Brasil tem a satisfação de patrocinar esta mostra que celebra o talento de 61 artistas negros, das diversas regiões do nosso país. Este é um dos vários projetos que valorizam nossa cultura e resgatam a ancestralidade, selecionados por meio do Edital de Patrocínios elaborado em parceria com o Ministério da Cultura e publicado em janeiro de 2023. Acreditamos que a arte é uma poderosa ferramenta de transformação social e, ao incentivar este projeto, reafirmamos nosso papel na construção de uma sociedade mais justa e plural”, destaca a presidenta do BB, Tarciana Medeiros.

Para o Centro Cultural Banco do Brasil, receber a exposição Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira valida seu compromisso de ampliar a conexão do brasileiro com a cultura, por meio de um projeto que reafirma nossas origens e ancestralidade, suas narrativas e símbolos, a decolonização, dentre outras questões que oferecem caminhos para compreender a construção contemporânea de identidades. A mostra ainda rompe paradigmas sobre o próprio fazer artístico e apresenta trabalhos que expressam pluralidade cultural, diversidade e a riqueza de manifestações regionais brasileiras, proporcionando diálogos relevantes e trocas significativas com público, artistas, mercado e sociedade.

Sobre o curador

Deri Andrade, alagoano, vive em Belo Horizonte, é pesquisador, curador e jornalista. Mestre em Artes na linha de pesquisa História e Historiografia da Arte (Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo – USP), especialista em Cultura, Educação e Relações Étnico-raciais (CELACC – Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da USP) e formado em Comunicação Social: Habilitação em Jornalismo (Centro Universitário Tiradentes – Unit). Interessa-se pelo conceito de arte afro-brasileira, investigando a correlação entre conteúdo e forma presente nas poéticas de artistas negros/as/es. Desenvolveu a plataforma Projeto Afro, resultado de um mapeamento de artistas negros/as/es em âmbito nacional, por entender que a arte é um importante instrumento catalisador na luta antirracista. Tem passagens por instituições culturais, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo, a Unibes Cultural e o Instituto Brincante. Atualmente, é curador assistente no Instituto Inhotim.

As cerca de 150 peças da mostra contam com trabalhos de Adriano Machado (Feira de Santana/BA), Ana Lira (Caruaru/PE), André Vargas (Cabo Frio/RJ), Andréa Hygino (Rio de Janeiro/RJ), Arthur Timótheo da Costa (Rio de Janeiro/RJ), Castiel Vitorino Brasileiro (Vitória/ES), Davi Cavalcante (Aracaju/ SE), Eder Oliveira (Timboteua/PA), Elian Almeida (Duque de Caxias/RJ), Elidayana Alexandrino (Coremas/PB), Emanoel Araújo (Santo Amaro da Purificação/BA), Flávio Cerqueira (São Paulo/SP), Gê Viana (Santa Luzia/MA), Gleyson Borges (Maceió, AL), Guilherme Almeida (Salvador/BA), Guilhermina Augusti (São Paulo/SP), Gustavo Nazareno (Três pontas/MG), Hariel Revignet (Goiânia/GO), Helô Sanvoy (Goiânia/GO), Josi (Itamarandiba/MG), Kika Carvalho (Vitória/ES), Lia Letícia (Viamão/RS), Lídia Lisboa (Guaíra/PR), Lita Cerqueira (Salvador/BA), Luna Bastos (Teresina/PI), Massuelen Cristina (Sabará/MG), Manauara Clandestina (Manaus/AM), Marcel Diogo (Belo Horizonte/MG), Marcela Bonfim (Porto Velho/RO), Marcus Deusdedit (Belo Horizonte/MG), Maria Auxiliadora (Campo Belo/MG), Matheus Ribs (Rio de Janeiro/RJ), Mauricio Igor  (Belém/PA), Mestre Didi (Salvador/BA), Mika (Teresina/PI), Milena Ferreira (Salvador/BA), Mônica Ventura (São Paulo/SP), Moisés Patrício (São Paulo/SP), Mulambö (Saquarema/RJ), Natan Dias (Vitória/ES), Nay Jinknss (Belém/PA), Panmela Castro (Rio de Janeiro/RJ), Paty Wolff (Cacoal/RO), Pedra Silva (Fortalez/CE), Pedro Neves (Imperatriz/MA), Priscila Rezende (Belo Horizonte/MG), Rafael Bqueer (Belém/PA), Renata Felinto (São Paulo/SP), Ros4 Luz (Gama/DF), Rubem Valentim (Salvador/BA), Sidney Amaral (São Paulo/SP), Silvana Mendes (São Luis/MA), Tercília Dos Santos (Piratuba/SC), Thiago Costa (Bananeiras/PB), Tiago Sant’Ana (Santo Antonio de Jesus/BA), Ueliton Santana (Rio Branco/AC), Victor Fidelis (São Paulo/SP), Vitú de Souza (São Paulo/SP), Washington Silvera (Curitiba/PR), William Lima (Will) (Belo Horizonte/MG) e Yhuri Cruz (Rio de Janeiro/RJ).

Circuito Liberdade 

O CCBB BH é integrante do Circuito Liberdade, complexo cultural sob gestão da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), que reúne diversos espaços com as mais variadas formas de manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. Trabalhando em rede, as atividades dos equipamentos parceiros ao Circuito buscam desenvolvimento humano, cultural, turístico, social e econômico, com foco na economia criativa como mecanismo de geração de emprego e renda, além da democratização e ampliação do acesso da população às atividades propostas.

 

SERVIÇO

Exposição: Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira

Período: de 25 de maio de 2024 a 05 de agosto de 2024

Funcionamento: de quarta a segunda, das 10h às 22h (fecha às terças)

Local: Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte – Pátio e Galerias do 3º Andar

Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte – MG

Entrada gratuita, mediante retirada de ingresso no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB Belo Horizonte

Classificação indicativa: Livre

 

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