Pesquisa não resulta em viabilidade na criação comercial de jumentos nem neutraliza impactos do abate para abastecer mercado de peles
A produção de embriões in vitro de jumentos nordestinos não é um resultado científico inédito nem tampouco uma biotecnologia que garanta a conservação desses animais diante da atual prática extrativista que sustenta o mercado da venda de suas peles por frigoríficos da Bahia para países como a China.
O alerta é de uma articulação formada por mais de 50 organizações, cientistas, pesquisadores e especialistas brasileiros e internacionais que atuam na defesa e conservação dos jumentos. A manifestação ocorre após a divulgação de que a Universidade Federal de Viçosa, por meio do Laboratório do Departamento de Zootecnia da UFV, estuda a produção in vitro de embriões asininos.
O grupo chama atenção para a necessidade de separar duas questões distintas: de um lado, a capacidade de produzir experimentalmente um embrião de jumento em laboratório – divulgado pela universidade – e, do outro, a preservação dessa espécie. Não há nenhuma garantia científica de que a fertilização in vitro de um jumento nordestino seja capaz de recompor uma população ameaçada de extinção frente à sua retirada contínua de vários estados da região nordeste, visando a extração e exportação da sua pele.
Um embrião não é uma população recuperada
Há um consenso dos cientistas de que a obtenção de embriões em laboratório representa apenas uma das etapas do processo reprodutivo. Para que essa biotecnologia tenha impacto populacional, é necessário demonstrar, entre outros aspectos, taxas consistentes de gestação após a transferência dos embriões, nascimento de animais saudáveis, sobrevivência, capacidade reprodutiva e viabilidade da aplicação em escala.
Por isso, no momento em que o embrião de um jumento nordestino existir, a próxima pergunta a fazer seria objetiva: essa gestação chegaria até o fim? A que custo? A fertilização seria capaz de aumentar a taxa de reprodução da espécie? A reposição dos animais nas fazendas aconteceria em tempo hábil para suprir a média de mais de 2 mil jumentos abatidos por mês pelo principal frigorífico deste segmento?
No mundo todo, até o momento, nenhuma pesquisa de produção de embriões não demonstrou que a fecundação in vitro consiga compensar a redução drástica da população de jumentos. Em 2024, por exemplo, um estudo com a raça francesa Poitou revelou que os embriões de jumentos transferidos para as receptoras resultaram em uma gestação interrompida antes do nascimento — ainda numa fase muito inicial.
Com isso, é possível dizer que a reprodução em laboratório não é economicamente ou biologicamente viável para viabilizar uma cadeia pecuária intensiva comparável às cadeias de bovinos, suínos ou aves, capaz de abastecer à demanda dos consumidores da China do ejiao – gelatina fabricada com o colágeno extraído da pele do jumento que teria, propriedades revigorantes segundo a cultura daquele país.
Transparência
O grupo formado por mais de 50 organizações e cientistas também consideram fundamental que os porta-vozes da propriedade rural conhecida como Jegue Land se apresentem de forma transparente, a fim de revelar os interesses econômicos envolvidos no projeto e na divulgação de fatos como o da pesquisa da Universidade Federal de Viçosa.
Alex Bastos, idealizador da Jegue Land, que descreve a área como uma fazenda voltada à conservação da espécie, é o maior vendedor de peles de jumentos à China, por meio da sua empresa Nordeste Pecuária, segundo o site da Redesim (Ministério da Fazenda). Ele tem dois sócios pessoas físicas domiciliadas no exterior, de acordo com a página oficial do governo federal.

Localizado em Amargosa, a oferta mensal de peles do abatedouro gira em torno de 2 mil unidades, de acordo com declarações do empresário à imprensa no ano passado. Essa informação é indispensável para que o público compreenda o conflito de interesse de uma pessoa ser, ao mesmo tempo, dono de um negócio de peles de jumentos e responsável por uma iniciativa de preservação da espécie.
Quando um agente econômico envolvido na exploração comercial da espécie também apresenta iniciativas de reprodução e conservação como resposta à redução da população, esse vínculo precisa fazer parte da notícia.
Uma crise que ultrapassa o Brasil
A preocupação dos cientistas e das organizações brasileiras faz parte de um problema internacional. A demanda por peles de jumentos está relacionada principalmente à produção de ejiao, produto tradicional comercializado na China. Com a redução da disponibilidade de animais naquele país, os fabricantes passaram a buscar jumentos em outras regiões do mundo, aumentando a pressão sobre populações especialmente na África e na América Latina.
O Brasil entrou nesse circuito internacional, e o Nordeste tornou-se o centro da atividade de abate no país. Por isso, pesquisadores alertam que o debate não pode ser reduzido à pergunta sobre como produzir mais animais. Antes disso, é necessário avaliar se existe uma população capaz de suportar a retirada em escala comercial, quais são os impactos sobre a diversidade genética, o bem-estar animal, a saúde pública e as comunidades que historicamente convivem com esses animais.
As organizações reconhecem a importância do desenvolvimento de técnicas de reprodução assistida para conservação genética e preservação da espécie. O que contestam é a utilização de um resultado laboratorial inicial como argumento de que isso seria uma solução para viabilizar uma cadeia comercial de abate.
Conservação não é produzir um embrião enquanto milhares de animais continuam sendo abatidos. Uma política efetiva de preservação exige dados populacionais confiáveis, rastreabilidade, proteção da diversidade genética, avaliação independente dos impactos da cadeia, fiscalização sanitária e de bem-estar animal e, sobretudo, demonstração científica de que qualquer exploração proposta não ultrapassa a capacidade de recuperação da população.
Enquanto essas respostas não existirem, a busca por uma produção de embriões in vitro deve ser tratada pelo que efetivamente representa dentro da biotecnologia reprodutiva – e não uma demonstração de que o abate comercial de jumentos no Brasil pode se tornar sustentável.

