Memorial Brumadinho promove seminário sobre prevenção

0
2
Brumadinho_MG, 22 de maio de 2025meorial_brumadinhoMemorial Brumadinho no distrito de Corrego do Feijao em Brumadinho MG.Imagem: Douglas Magno / NITRO

Sete anos e meio depois da maior tragédia humanitária e trabalhista do Brasil, que interrompeu 272 vidas após o rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Vale, a cidade de Brumadinho (MG) começa a se afirmar como território de memória e construção de futuro. É desse lugar que o Memorial Brumadinho realiza, de 13 a 15 de agosto de 2026, o seu primeiro seminário internacional – com especialistas, pesquisadores, artistas, jornalistas, lideranças comunitárias e familiares de vítimas –, para discutir direito à memória, justiça ambiental, mineração responsável, cultura de prevenção e não repetição.

O seminário ocorre num momento em que o Brasil discute seu papel na nova economia, impulsionada pelas terras raras, pelos minerais críticos, pela transição energética e pela neoindustrialização. Intitulado “Mande notícias do mundo de lá”, o encontro propõe uma reflexão sobre os paradoxos desse novo ciclo, incluindo o papel dos museus e memoriais na reparação simbólica, na formação de consciência e na transformação da realidade.

O Memorial Brumadinho nasce do luto e da luta dos familiares das 272 vítimas do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019. Apenas três anos antes da tragédia de Brumadinho, o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, já havia provocado a morte de 20 pessoas, destruído distritos inteiros e impactado a bacia do Rio Doce e seus ecossistemas com a lama tóxica.

Mais do que uma programação acadêmica ou cultural, o seminário internacional posiciona o Memorial Brumadinho como espaço de memória ativa, produção de conhecimento e compromisso público com a vida. A premissa é direta: lembrar não é permanecer preso ao passado. É construir uma cultura de responsabilidade para que nenhuma outra família precise enfrentar a dor por perdas prematuras e que poderiam ser evitadas.

A programação articula mesas de debate, visitas mediadas ao Memorial, intervenções artísticas e exposições fotográficas que valorizam o ser humano e o ambiente natural. A proposta é possibilitar trocas e a aquisição de conhecimento nos debates, nas caminhadas pelo bosque, na escuta das comunidades, na partilha da comida, na arte e na experiência concreta do território.

“O Memorial Brumadinho carrega a responsabilidade, que é de caráter coletivo, de transformar dor em legado, escuta em conhecimento e memória em compromisso com a vida. Este seminário é um convite para que o Brasil discuta o seu futuro, considerando aquilo que Mariana e Brumadinho já nos ensinaram”, diz Fabíola Moulin, diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho.

A Fundação Memorial de Brumadinho, responsável pelo espaço, é gerida de forma independente pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM).

Brumadinho_MG, 07 de janeiro 2025
Memorial Brumadinho
Imagem: Leo Drumond / NITRO

Serviço

Seminário internacional: “Mande notícias do mundo de lá”

Data: 13, 14 e 15 de agosto de 2026

Local: Memorial Brumadinho – Rua Hum, nº 100, Bairro Córrego do Feijão – Brumadinho, Minas Gerais

Informações ao público: www.seminariomemorial.com

 Programação completa

13 de agosto – Notícias raras

Transição energética, mineração e mudanças climáticas

10h – Visita mediada ao Memorial Brumadinho, conduzida pela familiar Kenya Lamounier e pela Diretoria Executiva da Fundação Memorial de Brumadinho.

12h às 13h30 – Almoço coletivo com Joseane Jorge, artista e arquiteta moradora de Suzana, Brumadinho. Seus trabalhos tiram partido do potencial de interação da arte e do compartilhamento da comida como ferramenta para trocas sociais e diálogos com o território e a paisagem.

14h às 16h30 – Mesa “Notícias raras”. Que histórias estamos contando ao mundo em nome da transição energética? Em meio à urgência da crise climática, cresce a demanda por minerais considerados essenciais para um futuro sustentável – uma busca que também produz marcas profundas nos territórios, nas comunidades e nos modos de vida. Participantes: Horacio Machado Araóz, pesquisador do CONICET e professor da Universidade Nacional de Catamarca, na Argentina; Malcom Ferdinand, pesquisador do CNRS, na França, e autor de Uma Ecologia Decolonial; Flávia Peret, escritora, pesquisadora e professora de criação literária, com a intervenção artístico-literária “Mineração do outro: fotografia e fabulação numa palestra-performance”; e Giovana Girardi, jornalista especializada em ciência e meio ambiente, chefe da cobertura socioambiental da Agência Pública e criadora do podcast Tempo Quente, como mediadora.

14 de agosto – Notícias em disputa

Cultura, greenwashing e legitimação corporativa

10h – Visita mediada à exposição “Florescer em meio à lama: Memórias que brotam”, com moradoras do Córrego do Feijão, e visita ao Córrego do Feijão, percorrendo o território que as exposições habitam. Visita mediada à exposição com Ísis Medeiros.

12h às 13h30 – Almoço coletivo preparado pelo grupo de mulheres do Córrego do Feijão – Memórias – Cozinha Afetiva.

14h às 16h30 – Mesa “Notícias em disputa”. Quem conta essa história? Toda narrativa escolhe o que iluminar e o que deixar à sombra. Mas quem escreve as histórias que contamos sobre desenvolvimento, progresso e futuro? E quais vozes permanecem ausentes quando determinados projetos passam a ocupar o centro do imaginário coletivo? Esta mesa propõe uma reflexão sobre os modos pelos quais grandes corporações atuam na produção de sentidos, afetos e pertencimentos, moldando percepções sobre os territórios e seus destinos. Ao atravessar temas como cultura, memória e greenwashing, discutiremos como determinadas narrativas se consolidam, naturalizando dependências, silenciando conflitos e transformando modos de vida em peças de uma promessa de futuro que parece não admitir alternativas. Entre disputas simbólicas e batalhas pela memória, buscamos compreender como a cultura pode ser, ao mesmo tempo, espaço de captura e de resistência – um território vivo onde se decide não apenas o que será lembrado, mas também quais futuros ainda podemos imaginar. Participantes: Célio Turino, historiador, escritor e idealizador do Programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura; Sara Raquel de Andrade, doutora em Sociologia pela UFRJ, com passagem pela Universidade de Yale e pós-doutorado na Universidade de Amsterdam; Aline Motta, artista visual, fotógrafa e diretora de cinema; e Pablo Lafuente, curador, educador, gestor cultural e diretor artístico do MAM Rio, como mediador.

15 de agosto – Notícias Memoráveis

Direito à memória, museus e regeneração coletiva

Manhã – Sem atividade.

12h às 13h30 – Almoço coletivo com Joseane Jorge, artista e arquiteta moradora de Suzana, Brumadinho.

14h às 16h30 – Mesa “Notícias Memoráveis”. O que a memória semeia no futuro? Como lembrar para transformar? Esta mesa convida os museus e os espaços de memória para o centro da conversa. Diante das promessas de um novo mundo – marcado pela transição energética, pelas crises ambientais, por acontecimentos traumáticos e pelas disputas em torno dos territórios – perguntamos: como estas instituições, que se colocam a serviço da sociedade, podem dialogar com esses processos e incidir sobre eles? Como sociedades transformam experiências de violência, ruptura e perda em memória coletiva? Participantes: Lucimara Letelier, fundadora da RegeneraMuseu e vice-presidente do ICOM Sustain; Amy Sodaro, professora associada de Sociologia na City University of New York e autora de Exhibiting Atrocity; Julia Medeiros, atriz, dramaturga e escritora mineira, criadora do projeto Testar a Saudade – Laboratório da Saudade; e Ana Paula Brito, historiadora, museóloga, professora da UFPE, fundadora e coordenadora da REBRAPESC, produtora e apresentadora do podcast “Memória pra quê?” e membro do ICOM, como mediadora.

17h – Atividade de encerramento.

Exposições durante os três dias

O bosque do Memorial abrigará duas exposições fotográficas: uma mostra com imagens da fotógrafa Ísis Medeiros sobre os modos de vida do território e os impactos do rompimento da barragem na vida da comunidade; e “Florescer em meio à lama: Memórias que brotam”, exposição concebida por moradores do Córrego do Feijão em parceria com o Instituto Cordilheira, apresentando o território e a vida comunitária antes do rompimento da barragem.

Sobre o Memorial Brumadinho

O Memorial Brumadinho é uma instituição autônoma e independente, fruto da luta da AVABRUM, criada para honrar a memória das 272 vidas interrompidas com o rompimento da barragem da Vale, ocorrido em 25 de janeiro de 2019, no Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). O Memorial nasce como lugar de memória, escuta, reparação simbólica, produção de conhecimento e compromisso com a não repetição.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui