Filme de Jackson Abacatu propõe desacelerar olhar

0
70

“A menina que queria ser pedra” estreia em Belo Horizonte com linguagem visual inédita, inspiração literária e uma trajetória de 20 anos dedicada à experimentação artística

No próximo dia 7 de maio, Belo Horizonte recebe a estreia de A menina que queria ser pedra, novo trabalho do artista visual, cineasta e músico Jackson Abacatu, no Cine Santa Tereza. Com cerca de duas décadas de atuação nas artes e no audiovisual, o diretor mineiro apresenta um filme que une literatura, animação e matéria em uma experiência estética singular.

Livros viram cinema: uma linguagem visual rara e artesanal

Um dos grandes destaques do filme está na forma como ele é construído.

Utilizando páginas de livros antigos como base para a animação, Abacatu cria cenas a partir da disposição desses livros em diferentes posições, tamanhos e camadas, um processo pouco usual no cinema contemporâneo. Cada movimento é inicialmente desenvolvido em animação 2D e, em seguida, projetado e pintado manualmente sobre o papel com nanquim. As páginas são então organizadas em composições físicas – que variam de um a vários livros simultaneamente – e capturadas em sequência.

O resultado é uma estética única, em que texto, imagem e materialidade coexistem, criando uma experiência visual quase tátil, marcada por sobreposições, texturas e múltiplas camadas de leitura.

Entre literatura e imagem: as inspirações do filme

O projeto nasceu a partir de um conto escrito pelo próprio diretor, influenciado pelas leituras do escritor Walter Hugo Mãe. A proposta também dialoga com artistas visuais como William Kentridge e Ekaterina Panikanova, conhecidos por
explorar a relação entre desenho, tempo e suporte físico.

Essa convergência entre literatura e artes visuais se reflete na narrativa do filme, que acompanha o diálogo entre duas crianças, um menino inquieto e uma menina serena, em uma reflexão sensível e existencial sobre percepção, tempo e
transformação.

Uma provocação contemporânea: o tempo da pedra

Mais do que contar uma história, A menina que queria ser pedra propõe uma experiência.

Em um cenário marcado pelo consumo acelerado de conteúdo e pela fragmentação da atenção, o filme convida o espectador a desacelerar. A pedra surge como símbolo central dessa reflexão — representando permanência, silêncio e um tempo diferente do ritmo humano contemporâneo.

A obra sugere que falta-nos um pouco dessa sensação de “pedra”: a capacidade de pausar, contemplar e mergulhar profundamente em uma experiência artística seja no cinema, na música ou em qualquer
forma de expressão.

Som e matéria: trilha com instrumento de pedra

A proposta sensorial se estende à trilha sonora. O filme incorpora uma marimba de pedra (litofone), construída pelo próprio diretor, além de elementos como piano e handpan, criando uma atmosfera sonora leve e imersiva, que acompanha
o ritmo contemplativo da obra.

Jackson Abacatu: 20 anos de experimentação artesanal e um olhar próprio sobre o mundo

Em 2026, Jackson Abacatu completa duas décadas dedicadas à criação artística. Formado em Cinema de Animação e Escultura pela Escola de Belas Artes da UFMG, o artista mineiro construiu uma carreira marcada pela inquietude criativa
e pela recusa em se fixar a uma única linguagem ou técnica. Ao longo desses 20 anos, dirigiu 18 curtas-metragens e 18 videoclipes, além de lançar dois álbuns de músicas autorais — números que revelam uma produção consistente e
diversificada.

No cinema de animação, Abacatu transitou por técnicas como recorte, 2D tradicional, stop motion, animação em areia e pintura em vidro, sempre priorizando o processo artesanal e a experimentação estética. Essa versatilidade rendeu reconhecimento em festivais nacionais e internacionais, com exibições em países como Canadá, Portugal, Argentina, Espanha, Tanzânia e Irlanda, além de prêmios como no 7º PRÊMIO BDMG CULTURAL, FCS de estímulo ao curta-metragem de baixo orçamento e Melhor animação no 33º Festival Guarnicê de Cinema – São Luis-MA, além de Melhor Animação Brasileira no Baixada Animada (RJ).

Obras como Tembîara (2011), com sua profunda ligação à cultura indígena e à língua tupi, e O Homem que Pintava Músicas (2013), que entrelaça animação e linguagem musical, ilustram outros traços permanentes de sua obra: a conexão
com a natureza, a sensorialidade e a busca por experiências contemplativas.

A Menina que Queria Ser Pedra chega como uma síntese madura dessa trajetória – e uma celebração de 20 anos de cinema feito com intenção, autoria e olhar próprio. Como parte das celebrações pelos 20 anos de carreira, Jackson Abacatu será
homenageado com uma retrospectiva de sua obra na MUMIA – Mostra Udigrudi Mundial de Animação, que chega à sua 24ª edição em dezembro de 2026. A mostra reunirá uma seleção de seus curtas-metragens e videoclipes, evidenciando a diversidade técnica e a evolução estética de sua produção ao longo das últimas duas décadas. A retrospectiva reforça o reconhecimento de sua trajetória no campo da animação autoral e destaca sua contribuição para o cinema experimental brasileiro, consolidando seu nome entre os artistas que expandem as possibilidades da linguagem animada.

SERVIÇO
Filme: A menina que queria ser pedra – Jackson Abacatu
Estreia: 07 de maio
Local: Cine Santa Tereza
Cidade: Belo Horizonte – MG
Trailer:

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui