Automóvel Clube de Minas Gerais – 100 anos de tradição

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Pela primeira vez no Brasil foi realizada uma visita cultural cujo tema era o estilo eclético! Até muito recentemente este estilo de arquitetura e design tinha sido deixado de lado, perdido entre um neoclássico imperial e o modernismo brasileiro. Porém o ecletismo é a síntese de Belo Horizonte, cidade idealizada e construída exatamente na belle epoque tardia, na virada do século XIX ao XX, período em que o ecletismo ditou as regras . Com mais de 500 edificações deste estilo – Belo Horizonte se tornou uma das referências mundiais, e o prédio do Automóvel Clube de Minas, talvez seja essa grande “joia da coroa” deste estilo que reúne elementos palacianos, gregos, romanos, barrocos, clássicos, góticos, renascentistas…. a própria palavra “eclético”, já resume bem, é um conjunto harmônico de vários períodos históricos, onde a arquitetura comunica ideias e mensagens, uma arquitetura da história útil, que demanda a própria cultura do visitante.
Com um grupo bastante seleto de mulheres o passeio cultural ao Automóvel Clube se iniciou pelo majestoso Hall de acesso à portaria, logo de frente – o primeiro elevador a ser colocado em funcionamento em Minas Gerais. Um grande exemplo da revolução industrial que estava em curso, uma máquina geniosa que levava as pessoas para cima e para baixo. Hoje algo até banal, porém cem anos atrás, um grande atração da engenharia humana. O elevador do estilo pantografico todo estruturado em bronze polido apresenta elementos vazados, exatamente para que a jornada, prédio acima, fosse uma experiência visível. E onde o observador que estivesse no Hall visse, a coragem e modernidade de quem ascender aos andares superiores. Uma revolução do pensamento. Ao fundo do elevador uma grande cortina de luz, traz foco aos vitrais que contam a história do Automóvel ao longo dos milênios. Cortina de luz que brotava de um jardim de inverno instalado na cobertura do edifício. Já no primeiro vitral a interessante referência aos carros de corrida que tanto sucesso faziam nos anos 1920. Carros de corrida que representavam toda a velocidade, dinamismo e coragem necessários para viver o revolucionário século XX que se iniciava. Em círculo floral, entre acantos, a imagem de Pietro Bordino, “il diavolo rosso” piloto em maior evidência nos anos 20, um italiano extremamente arrojado. E logo ao lado também em círculo floral a imagem de uma piloto mulher, Helle Nice, uma francesa que simbolizou o heroísmo e esteve no Brasil, onde foi recepcionista pelo Automóvel Clube, ela inclusive influenciou em muito a criação do nome que batizou toda um geração “Hellenice” foi nome popular nas décadas que se seguiram. “Muito interessante e até revolucionário o Automóvel Clube ter homenageado uma mulher piloto de corrida, isso em pleno 1929” destaca Geórgia Moraes uma das visitantes do passeio.
Logo na sequência o vitral mostra um referência a carruagem do rei francês Luís XIV – o rei sol, com toda sua imponência majestatica. É a arquitetura mandando recado, comunicando, um grande símbolo do ecletismo. “você visitante do Automóvel Clube, também seja nobre, nobre nas atitudes e no comportamento, nas ações”.

O Hall é realmente um espaço extremamente interessante do ponto de vista arquitetônico, traz uma “pronaus” uma sequência de escadarias que definem na época greco romana, o que era um edifício para ir de carro – o carro ou veículo ficava do lado de fora da pronaus, indicando assim mais uma referência arquitetônica do ecletismo. Logo na sequência vemos as 3 portas simétricas em arcos plenos que incorporam ferro forjado, encinado por teto de vidro. Elementos da revolução industrial incorporados ao edifício. “A soma de todos estes elementos gera uma estética muito interessante, uma verdadeira viagem no tempo” destaca Bia Neiredo, visitante deste passeio.
Adentrando mais um pouco neste Hall temos as colunas de estilo toscano encimadas por capitéis de estilo jonico, coisa que no neoclássico não veríamos pois uma coluna jonica pediria um fuste canelado ou vincado, ao gosto grego, e ao incorporar um fuste liso toscano temos mais uma refencia perfeita ao ecletismo. As escadas do Automóvel Clube são puro fausto. Muito porque haviam pessoas avessas ao elevador, preferiam a tradição da escada que é calçada de lindo mármore e decorada com apliques de pedra, traz gradio de interessante junção antropomorfico, zoomorfico e fitomorfico, talvez sendo único representante no mundo eclético desta junção. O bocel da escada é a junção da referência a uma pata de leão com algo pitoresco como um ramo de Carvalho. A junção de elementos naturais…
Subindo um pouco mais e antes de adentrar ao salão dourado, temos o vitral que mostra a megalopole, a metrópole que Belo Horizonte se propunha a ser, em pleno 1929, não haviam prédios maiores que 4 pavimentos na cidade, não haviam arranha-céus, porém o vitral do Automóvel Clube já antecipa tudo isso, como que prevendo a verticalização da cidade que viria logo após. Também ilustra os interessantes faróis de diversos carros, formando cena que traz movimento de acordo com a incidência da luz…. verdadeiro deleite visual, ral como um cinema de luz.

O salão dourado é realmente o ápice das salas de reunião e festa em toda Minas. É um espetáculo à parte. Janeloes deixam os raios da avenida Afonso Pena entrar no recinto e trazem também o verde natural do parque municipal que está logo à frente. Verde este que ao refletir nos espelhos do salão trazem a mesma natureza que se vê em Versalhes, onde o salão dos espelhos foi a grande inspiração do arquiteto Luiz Signorelli que assina o projeto. O salão dourado possui espelhos muito parecidos com os de Versalhes, inclusive com o mesmo recorte veneziano do Palácio do rei sol francês. Também possui ao centro 3 lustres de cristal da Boêmia, lapidados manualmente peça a peça, trazem na sua faceta a própria luz pois refletem como caleidoscópio cada faixa de luz emitida pela grande novidade da época a luz elétrica. Logo ao lado o salão Príncipe de Gales que recebeu este nome para homenagear a visita da corte real inglesa à Belo Horizonte, isso em 1931. Imaginar que uma cidade com menos de 90 mil habitantes recebeu a visita dos futuros Reis da Inglaterra e do Reino Unido, George e Eduardo que na oportunidade dançaram com jovens moças no salão do Automóvel Clube, é desta época o palco instalado para receber atrações musicais e teatrais. Há um recuo no salão onde orquestras de bolso poderiam tocar de form bastante intimista o jazz da época. Porém temos relatos que os príncipes ingleses dançaram inclusive maxixe um ritmo bem brasileiro, sincopado, e que deu origem ao samba de gafieira.
Grande destaque do passeio cultural do estilo eclético foi poder analisar a mobília de época, toda fabricada pela empresa Laubisch & Hirth que traz estilo francês e inglês à decoração suntuosa. “Podemos acessar inclusive a prataria, onde vimos taças coupe de cristal centenárias e os talheres de prata abrasonados com o timbre do Automóvel Clube, um charme”, destaca Sil Ribeiro, organizadora desta visita temática.
Só para se ter ideia, o grande design de móveis Joaquim Tenreito era um dos artesãos da empresa Laubisch & Hirth e pode ter posto a mão em alguns dos objetos que vimos no passeio. Também vale muito lembrar que o arquiteto Luiz Signorelli que idealizou cada cantinho do Automóvel Clube foi professor de Lúcio Costa, criador das formas arquitetônicas de Brasília e também de Atilio Corrêa que deu vida a arquitetura da nova cidade de Goiás… Veja a importância deste arquiteto e sua obra eclética.
Subindo mais um andar fomos recebidos pelo piano de cauda que estava executando belíssima peça de Bach. Isso em pleno restaurante do Automóvel Clube que hoje é totalmente aberto ao público em suas mesas e cadeiras de estilo Michel Thonet. O restaurante é arejado por imensas janelas que trazem fluxo de ar, e possui decoração de arandelas de luz anarela, o que traz leveza e intimismo ao ambiente. Com cardápio que resgata clássicos dos anos 1920, como o filet Suíço que traz deliciosa peça de carne recheada e gratinada com farta camada de queijos. “Um dos poucos lugares do Brasil onde se pode beber bom vinho e comer pratos com 100 anos de tradição”… inclusive este filé Suíço foi um dos pratos preferidos de Juscelino kubitcheck que usava as instalações do automóvel clube para comemorar em jantares de gala os grandes feitos do seu governo nos anos 50. O Automóvel Clube a essa época era conhecido como o gabinete invisível, epicentro da política de conciliação, onde situação e oposição conversavam e chegavam a algum ponto em comum. Reuniões entre opositores como Benedito Valadares, JK, Milton Campos e Pedro Aleixo mostravam como a arquitetura do automóvel clube foi acertiva ao edificar um templo, não um templo religioso, e sim um templo ao diálogo, onde um clube pode proporcionar momentos únicos com o outro, o interlocutor, e onde o consenso pode ser construído. Talvez a grande mensagem da arquitetura que fica neste centenário do Automóvel Clube seja essa, há sempre espaço para o diálogo em uma sociedade, desde que exista um local propício, tal como o templo que é o Automóvel Clube de Minas… e para fechar o passeio ficamos de frente ao último vitral, o mais proeminente que traz a figura egípcia de Ramsés II, maior faraó de todas as dinastias, é ilustrado em seu carro na batalha de Cadexe, onde dirige a biga de 2 cavalos e ao mesmo tempo combate com arco. Essa imagem veio a tona exatamente na feira mundial de belas artes de Paris de 1925 quando os planos da construção do automóvel Clube de Minas estavam sendo desenhados. E é extremamente interessante ver que o carro ilustrado no vitral é um dos carros de outro faraó, tutancamon que acabava de ser desenterrado das areias do deserto mais de 3 mil anos depois de ser selado em uma tumba. Isso ilustra como Belo Horizonte estava diretamente conectada e interligada com o mundo que vivia, e alguma foto de jornal serviu como referência a esse vitral tão eclético ao ponto de misturar 2 faraós distintos… um passeio ao automóvel clube revela histórias tão palataveis e pitorescas como essas… imagine quantas outras histórias existem ainda à serem reveladas nesta arquitetura?
“Observar o pórtico do salão dourado e ver as colunas do barroco tardio, talvez grande referência ao esplendor das Minas Gerais do ciclo do ouro, mexeu com meu lado artístico, principalmente por ver que no frontao do arco existem duas cornucopias, símbolo da abundância greco romana” destaca Mary Cusin, artista plástica e visitante do passeio. Ótimo destaque arquitetônico este das cornucopias da abundância, pois elas desejavam como augúrios a quem adentrar ao salão dourado exatamente abundância e riqueza, porém não só riqueza pessoal, riqueza moral e social. Refletindo como a sociedade de 1929 pensava… um cidadão não é pleno sem ascender também artisticamente e culturalmente, veja a beleza que é o que comunica a arquitetura eclética…

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