A Serpente: o teatro como espelho das contradições humanas

0
11

Há algum tempo a cena estava meio monótona no teatro. Só se via “mais do mesmo”. Um lugar comum, cenas criadas apenas pela narrativa engessada, textos bonitos e elegantes que eram desprovidos da essência da estética. Estética essa essencial para que o teatro seja uma experiência sensorial marcante. E a peça “A Serpente” com texto de Nelson Rodrigues veio para derrubar essa monotonia. Trouxe o essencial: a velocidade, o fluxo, a paixão e o impulso. Tudo isso visível em cena. A peça escancara a intimidade cotidiana de uma casa, expondo a fragilidade das convenções sociais diante do desejo humano. Tal como metáfora bíblica – para a serpente – basta uma pequena fresta de tentações na moralidade frágil para que todas as convenções sociais sejam deixadas de lado. O homem e a mulher cedem a tentação e assim retornam ao seu estado natural removendo as máscaras que dizem “se pareciamos felizes, é porque somos cínicos”…(frase da própria peça).
Última obra teatral de Nelson, no que chamamos de estilo tragédia carioca, baseado nas míticas tragédias gregas. Nesta nova montagem de A Serpente o critério de consagração deixa de ser a obra e passa a ser a intensidade psíquica. Intensidade essa crescente, rápida, ágil, potente. Nelson abre mão de longas explicações e detalhes, vai logo a ação, e os personagens refletem isso, sem reflexão, movidos a ação, guiados pelo instinto.
E isso resulta em “Tragédia” nua e crua como vimos no Teatro da Cidade. Duas irmãs muito íntimas Guida e Lígia, casam-se no mesmo dia e passam a morar juntas em um pequeno apartamento herança do pai. Parede a parede, lado a lado com seus respectivos maridos Paulo e Décio. Após um ano de casamento “a bomba”, uma separação entre Décio e Lígia, pela não consumação do casamento. O marido via na esposa algo extremamente sagrado, algo virginal e algo intocável, a colocando em um estado de Santa aos seus olhos… logo Lígia escolhe o caminho da morte. “É tão fácil, tão simples morrer. Tomei horror da vida. Guida eu não fui feita para viver” declara…
E Guida toma uma atitude que viria a mudar tudo, pensando em salvar a irmã das mãos da morte, oferece uma noite de amor com seu próprio marido Paulo.
O marido desenvolve enorme desejo por Lígia e os dois passam a se encontrar as escondidas. E a cumplicidade e afeto das irmãs passa a dar espaço a um vi uma violento, obsessões, rancor e ódio crescente. “Evidenciando que amor e ódio são medidas do mesmo copo”…basta o impulso agir.
O desfecho é trágico. Guida não sobrevive…E a irmã declara “minha irmã morreu…mas eu tenho medo de não chorar!”.

A satisfação e a insatisfação são dois elementos centrais da trama, e se alternam e tempo todo. Mostrando que muitas vezes não estamos no domínio de absolutamente nada.
Lígia é a imaculada que reflete a frustração de quem é anulada, em um estado profundo de melancolia devido à rejeição do marido. Ela internaliza essa rejeição como uma falha pessoal, desenvolvendo uma fixação na própria morte como única saída de dignidade viável. Lígia passa a competir com a própria irmã sem qualquer remorso moral, demonstrando como o egoísmo do desejo rompe os laços de afeto familiar. Já Guida é a benevolente, é movida por um senso de responsabilidade perante a irmã e pelo orgulho de seu próprio casamento perfeito. Sua proposta de doar o marido nasce de uma fantasia ingênua de controle e generosidade absoluta. Ela acredita ser psicologicamente imune ao ciúme, porém ela acaba se tornando a vítima de sua própria arrogância afetiva.


Paulo é o transgressor, figura mais mítica do universo Rodriguiano, personifica o homem suburbano animalesco e amoral guiado pelo instinto bruto e sem freios morais. Embora parecesse um marido devoto no início, bastou o consentimento e a oportunidade para que seus desejos mais primitivos fossem liberados. E Décio representa o ferido. O de dupla moral ao encarnar a hipocrisia e as contradições da virilidade masculina. Ele sofre de uma impotência psicológica que é direcionada especificamente à esposa enquanto busca por amantes fora de casa. É sua fraqueza e falta de comunicação que arruína o casamento. Crioula é uma quinta personagem, ela representa o próprio povo brasileiro, possui desinibição absoluta, figura livre de amarras e convenções, é ela que escancara as hipocrisias das relações ao seu redor.
Está é a panela de pressão criada por Nelson Rodrigues…E é toda essa intensidade, num turbilhão que vimos na montagem de A Serpente do grupo Confesso, sob a direção do criativo Guilherme Colina, em cartaz no Teatro da Cidade em Belo Horizonte e com ótima atuação de Bruno Venna, Emiliano, Simone Ribeiro, Efigênia Maria e com brilhante destaque a Carol Carva.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here