Moisés Navarro revisita a obra de Jessé em álbum

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Em “Alguém Cantando”, intérprete recria dez canções associadas ao repertório de Jessé e reúne artistas de diferentes trajetórias em um disco sobre memória, interpretação e permanência da música brasileira

Como cantar novamente uma obra que já tem uma voz profundamente associada a ela? A pergunta atravessa “Alguém Cantando”, novo álbum de Moisés Navarro, dedicado à obra de Jessé, intérprete que marcou a música brasileira com sua intensidade vocal e com canções que atravessaram gerações. Com lançamento previsto para 13 de novembro de 2026, nas plataformas digitais e em CD, o trabalho reúne dez faixas e participações especiais de Claudya, Zeca Baleiro e Chico Lobo.

Produzido por Alexandre Vianna e lançado pela Companhia de Discos do Brasil, o álbum parte de um princípio: homenagear não significa reproduzir. Em vez de tentar ocupar o lugar de Jessé, Moisés Navarro se aproxima desse repertório a partir de sua própria interpretação, buscando preservar a força emocional das composições e, ao mesmo tempo, encontrar novas possibilidades para canções que continuam presentes na memória afetiva do público.

O repertório percorre diferentes paisagens da música brasileira, reunindo títulos como “Voa, Liberdade”, “Romaria”, “A Noite do Meu Bem”, “Onde Está Você” e “Porto Solidão”. A seleção alterna canções de intensidade dramática, temas românticos e obras que evocam a fé, a solidão, a amizade e a esperança.

“Não se trata de tentar cantar como Jessé, mas de compreender o que essas canções provocam em quem as escuta e encontrar a minha própria maneira de transmitir essa emoção. A homenagem só faz sentido quando existe verdade na interpretação. Quero que as pessoas reconheçam a força desse repertório, mas também encontrem algo novo na maneira como ele chega até elas”.

Moisés Navarro.

Encontros entre diferentes gerações da música brasileira

Um dos destaques do álbum é “Porto Solidão”, que reúne Moisés Navarro e a cantora Claudya. A composição, conhecida por sua atmosfera contemplativa e por suas imagens de mar, viagem e desencontro, ganha uma interpretação compartilhada que aproxima duas vozes em torno de uma mesma experiência musical.

A participação de Claudya acrescenta ao projeto a experiência de uma artista cuja trajetória atravessa diferentes momentos da música popular brasileira. Esse encontro representa a possibilidade de revisitar uma canção conhecida sem abrir mão da personalidade de seus intérpretes.

“Participar de ‘Porto Solidão’ é uma oportunidade de reencontrar uma canção que tem uma força emocional muito própria. Quando duas vozes se encontram, cada uma traz sua história, sua sensibilidade e sua maneira de sentir a música. O bonito é justamente permitir que essas experiências convivam e revelem novas nuances da canção”.

Claudya.

Outro encontro importante acontece em “Solidão de Amigos”, com participações de Zeca Baleiro e Chico Lobo. A faixa aproxima universos distintos da música brasileira e conta com a viola caipira de Chico Lobo, instrumento que contribui para a identidade sonora da gravação.

A participação do violeiro estabelece uma conexão com a tradição musical brasileira e com a dimensão poética do repertório. A presença de Zeca Baleiro, por sua vez, acrescenta outra personalidade interpretativa ao encontro.

“‘Solidão de Amigos’ tem uma imagem muito bonita: a música como companhia, como lugar de encontro entre pessoas e histórias. A viola caipira carrega uma memória coletiva, uma relação com a terra, com a poesia e com a vida cotidiana. Participar desse trabalho é também reconhecer como essas tradições continuam vivas quando encontram novos intérpretes”.

Chico Lobo.

Um repertório que atravessa diferentes paisagens

A escolha das dez faixas amplia o alcance do projeto. “Romaria”, de Renato Teixeira, conduz o ouvinte a um território em que fé, identidade e pertencimento se encontram. “A Noite do Meu Bem”, de Dolores Duran, apresenta uma atmosfera intimista, enquanto “Onde Está Você” transforma a ausência amorosa em uma pergunta que permanece sem resposta.

“Campo Minado”, composta por Mário Maranhão, Mário Marcos e Zequinha Rodrigues, introduz uma dimensão mais tensa, marcada pela vulnerabilidade e pelos riscos das relações. Já “Irmãos da Lua”, também de Renato Teixeira, propõe uma reflexão poética sobre a humanidade, o pertencimento e aquilo que une as pessoas.

A canção que dá nome ao disco, “Alguém Cantando”, de Caetano Veloso, funciona como uma chave para compreender o projeto. A voz que surge ao longe e encontra alguém disposto a escutá-la simboliza o próprio percurso de uma obra musical: uma interpretação termina, mas a canção continua procurando novas vozes.

Produzido por Alexandre Vianna, o álbum conta com piano, contrabaixo, bateria, flauta, violão e instrumentos de cordas, incluindo violinos, viola e violoncelo. Vianna assina também a direção musical, os arranjos, a mixagem e a masterização. As gravações foram realizadas no Space Blues, com mixagem e masterização no AGA Studio.

A memória como matéria viva

Em “Alguém Cantando”, Moisés Navarro escolhe olhar para o passado sem transformá-lo em peça de museu. A proposta é devolver movimento a um repertório por meio de novas interpretações, valorizando tanto a identidade das canções quanto a liberdade de quem as canta no presente.

“Esse disco nasce do respeito por uma obra que continua dizendo muito às pessoas. Quero que ele seja uma ponte entre a memória de Jessé e os ouvintes de hoje, inclusive aqueles que talvez estejam descobrindo essas canções agora. A música permanece quando alguém se apropria dela com respeito, emoção e personalidade”.

Moisés Navarro.

O título do álbum sintetiza essa ideia: enquanto houver alguém disposto a cantar, uma história musical poderá ser recontada. A homenagem a Jessé se constrói, assim, não pela tentativa de reproduzir uma voz insubstituível, mas pela disposição de manter vivo aquilo que suas canções continuam despertando.

Sobre Moisés Navarro

Natural de Pitangui, no coração do oeste mineiro, Moisés Navarro cresceu embalado por cantorias familiares, encontros escolares e celebrações religiosas onde, ainda menino, entendeu que a música seria seu caminho. A infância entre violões e vozes o conduziu ao palco da vida artística, e foi com essa bagagem de afetos e raízes que, já em Belo Horizonte, começou a compartilhar sua voz na internet, encantando o público com interpretações de Dorival Caymmi, Orlando Silva, Adoniran Barbosa e Milton Nascimento. O acaso — ou o destino — fez com que seus vídeos caseiros alcançassem milhares de visualizações, atraindo a atenção do produtor Ricardo Gomes, que viria a ser seu parceiro musical.

Desde então, Moisés trilha uma carreira coerente, delicada e potente, marcada por homenagens à música popular brasileira em sua pluralidade. Seu primeiro disco, Viver a Vida, teve direção artística de Daniel Silveira. Em seguida, veio o álbum Aquele Abraço, Gilberto Gil, com arranjos do Maestro Jaime Alem, que celebra o lado menos conhecido do compositor baiano, em parcerias com nomes como Zezé Motta, Áurea Martins, Renegado, Trio Janaju e Margareth Menezes. Cada projeto de Navarro se revela como um gesto de escuta profunda e reinterpretação amorosa da história da canção brasileira.

Aos 40 anos, Moisés Navarro se consolida como uma das vozes mais singulares de sua geração. Seu canto, sereno e visceral, ressoa como um elo entre o ontem e o amanhã da nossa música. Silêncio de um Minuto, seu novo álbum, com participações especiais de Alaíde Costa, Claudette Soares, Maria Alcina, Maurício Tizumba e Rômulo Fróes chega como mais uma etapa dessa trajetória: um tributo a Noel Rosa que não se limita à reverência, mas ousa dialogar com o presente, propondo ao público um reencontro com o passado que ainda pulsa — e canta.

Fotos – Crédito Samuca Kim:

Capa:

Leandro Arraes

 Ouça o álbum aqui:

https://drive.google.com/drive/folders/1GMw3UHxt-vLpXaZwQ0–XA8w75cNbIEI?usp=sharing

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