Em 2022, Maria Galant seguiu uma aposta arriscada: a atriz, que na época tinha 24 anos, chegou a São Paulo sem a garantia de que sua carreira de atriz, muito promissora, mas ainda não totalmente estabelecida em Porto Alegre, sua cidade natal, iria ser reconhecida e lhe garantir um ganha pão. De fato, não é um caminho fácil: a atuação é um ofício de extremos, sem tanto espaço para atores que, mesmo sem terem estourado nacionalmente, já possuem experiência.
“Costumo falar que tenho 12 anos como atriz ‘iniciante’. Trabalhei muito, mas, mesmo assim, ao chegar em São Paulo, passei por um período no qual apenas projetos de colegas, profissionais com quem trabalhei anteriormente ou amigos chegavam até mim. Não sabia como me estabelecer, sem grandes contatos, em uma cena artística longe da minha”, explica Maria.
O voto de confiança veio há dois anos, em uma ligação com a santa-catarinense Cintia Domit Bittar. Apresentadas 08 anos atrás, Cintia e Maria, por admiração mútua, sempre tiveram o sonho de trabalhar juntas; quando estava selecionando os atores para as personagens de ‘Virtuosas’, Cintia lembrou de Maria, a deixando livre para escolher quem interpretar – a opção por Germana, personagem da atriz gaúcha, parecia o desafio certo. “Além de gostar imensamente do filme e das pessoas com quem trabalhei, ‘Virtuosas’ me deu confiança no meu ofício; era a chance que eu tanto quis de colocar em prática tudo que estudei em um papel que tira da minha zona de conforto e me expõe a novos públicos”, complementa Maria.
Dois anos depois, Cintia, Maria e o resto do elenco colhem os frutos: “Virtuosas”, chegou aos cinemas na quinta-feira (24). No ano anterior, o longa estreou na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, mais importante festival de cinema do país, ganhando o concorrido prêmio de aquisição da Netflix, o que selou sua exibição no streaming.
Em “Virtuosas”, Maria é co-protagonista ao lado de Bruna Linzmeyer. Na trama, um grupo de mulheres se reúne em um retiro exclusivo, enquanto lidam com diversas situações que, apesar de se organizarem ao redor de elementos de terror, refletem debates que estão em vogas nas redes sociais – como a questão das trad wives, mulheres contemporâneas que renunciam, muitas vezes, a direitos adquiridos em troca de um estilo de vida “tradicional”.
O novo longa, porém, não foi o primeiro longa protagonizado pela atriz. Após ter praticado teatro na infância, Maria estreou no cinema, já como protagonista, em 2015, no filme “Mulher do Pai”, de Cristiane Oliveira. Sucesso de crítica, foi exibido no prestigiado Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), em 2017.
A participação rendeu, para Maria, uma indicação a Maria para o Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro como Revelação, categoria já vencida por atores renomados como Lázaro Ramos e Wagner Moura. De 2015 para cá, Maria atuou em mais de uma dezena de curtas-metragens e produções diversas, como as séries “Werner e os Mortos” (Canal Brasil), “Paralelo 30” (Prime Box Brasil) e “A Bênção” (Canal Brasil/Globoplay).
Ela foi Ali Guardar o Coração na Geladeira
De forma paralela à carreira de atriz, Maria também dedica-se à vida acadêmica. Formou-se em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), curso que escolheu com a intenção de ser professora de Artes. Após sua mudança para São Paulo, no começo de 2022, Maria ingressou no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (PPG FEUSP), na linha de pesquisa de Cultura e Educação. Adicionalmente, ela também atua como roteirista, produtora cultural e pesquisadora.
Neste ano, Maria estreia novamente a Mostra de Cinema de São Paulo com o longa-metragem “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira”, dirigido também por Cristiane Oliveira, que dirigiu o primeiro filme de Maria, ao lado de Gustavo Galvão. O filme, gravado em Porto Alegre, chega ao país já premiado no circuito de festivais em países como França, Uruguai e Argentina.
“Ela foi Ali Guardar o Coração na Geladeira” utiliza uma mescla de artifícios experimentais, documentais e investigativos para retratar a Ditadura Civil-Militar brasileira com uma abordagem inusitada e contemporânea. Como destaque, a trilha sonora foi assinada por Lee Ranaldo, ex-guitarrista da lendária banda alternativa Sonic Youth. Na obra, a personagem de Maria, Luiza, recebe, aparentemente por engano, vídeos de uma mulher no Uruguai. Tudo se complica, porém, quando Luiza percebe que a desconhecida possui o mesmo rosto de sua mãe, já falecida.
“Trabalhei muito, desde que cheguei em São Paulo, para me estabelecer, para ser vista, para ser chamada a papéis, para me aprimorar… agora, no final do ano, estou vendo o resultado de dois projetos que trabalhei com muita paixão. Minha expectativa é de que isso seja uma tendência e que eu possa continuar trabalhando no audiovisual em que eu acredito”, finaliza Maria.

