Halloween: a força da bruxa além dos estereótipos

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Por Geovanna Reis (http://portaldabruxa.ink/)

Em outubro, elas ganham as festas, as vitrines, os filmes, as fantasias e as redes sociais. Chapéus pontudos, cartas, velas, roupas pretas e símbolos místicos se transformam em tendência. A bruxa vira personagem, estética e motivo de celebração.

Mas o que acontece quando outubro acaba?

Quando as fantasias são guardadas, as decorações desaparecem e o Halloween deixa de ser assunto, existem mulheres que continuam sendo chamadas de bruxas. Não porque estejam fantasiadas para uma festa, mas porque essa identidade faz parte de suas vidas, de sua espiritualidade e de sua história.

É nesse contraste que começa a trajetória de Geovanna Reis, conhecida publicamente como Portal da Bruxa.

Bruxa, cartomante, tatuadora e influencer, ela construiu sua presença profissional em torno da espiritualidade, dos oráculos e da própria identidade. Mas sua história também carrega uma experiência dolorosa: ela relata ter sido acusada de bruxaria três vezes em sua cidade.

A contradição que ela aponta é difícil de ignorar: por que a bruxa pode ser admirada quando representa uma fantasia, mas se torna alvo de julgamentos quando é uma mulher real?

Para Geovanna, a resposta passa pelo preconceito e pela dificuldade que algumas pessoas têm de respeitar aquilo que não compreendem.

“A Inquisição ainda existe”, afirma.

A frase é uma crítica contundente à mentalidade de perseguição que, embora não seja a mesma dos tribunais históricos da Inquisição, continua aparecendo em atitudes de intolerância, acusações e tentativas de deslegitimar a espiritualidade alheia.

Ao expressar sua indignação, Geovanna também utiliza uma definição forte para esse comportamento: “uma podridão patológica da alma”.

Não se trata de exigir que todos acreditem na bruxaria. Trata-se de questionar por que alguém deveria ser atacado por viver uma identidade espiritual diferente.

Afinal, o que é o verdadeiro Halloween?

Conhecido no Brasil como Dia das Bruxas, o Halloween é celebrado em 31 de outubro e possui uma história que vai muito além das fantasias de terror.

Entre suas associações históricas está o Samhain, festividade de origem celta relacionada ao fim das colheitas e à transição entre períodos do ano. Ao longo do tempo, diferentes influências culturais e religiosas contribuíram para transformar a celebração na data que conhecemos hoje.

Na cultura popular, o Halloween ganhou abóboras iluminadas, personagens assustadores, filmes de terror e uma imagem muito particular da bruxa: misteriosa, poderosa, cercada de símbolos e frequentemente retratada como alguém que domina conhecimentos ocultos.

Mas essa representação não conta toda a história.

A bruxaria não é uma tradição única, com uma única crença ou uma única maneira de ser praticada. Existem diferentes caminhos, interpretações e relações com a espiritualidade. Algumas pessoas associam suas práticas aos ciclos da natureza, à ancestralidade, aos rituais e ao autoconhecimento; outras compreendem a bruxaria de maneiras distintas.

Também é importante lembrar que nem toda bruxa segue a mesma religião e que nem toda prática espiritual pode ser resumida à imagem criada pelo cinema.

O Halloween contemporâneo é uma celebração cultural para muitas pessoas. Para outras, pode ter significados espirituais específicos. Não existe uma interpretação universal que represente todas elas.

O problema começa quando a fantasia se torna a única maneira pela qual a sociedade consegue enxergar a bruxaria.

É fácil admirar o mistério de uma personagem fictícia. Mais difícil, aparentemente, é respeitar uma pessoa que assume essa identidade fora das telas.

E é justamente essa diferença que transforma o Halloween em uma oportunidade para uma conversa necessária: conhecer a história da data, compreender a diversidade da bruxaria e abandonar a ideia de que tudo aquilo que foge das próprias crenças merece ser condenado.

Uma menina chamada de bruxa pela própria avó

A história de Geovanna com a palavra “BRUXA” não começou com uma fantasia, uma tendência da internet ou uma escolha de imagem para as redes sociais.

Segundo ela, sua avó Gislene já a chamava de BRUXA desde a infância.

Essa lembrança familiar faz parte da maneira como Geovanna conta sua trajetória. Com o passar dos anos, ela passou a compreender melhor sua espiritualidade, suas percepções e sua mediunidade, construindo uma relação própria com esse universo.

O que começou como uma palavra presente em sua infância tornou-se parte de sua identidade pública e profissional.

Hoje, Portal da Bruxa representa mais do que um nome nas redes sociais. É a marca sob a qual Geovanna compartilha seu trabalho, apresenta seus conhecimentos e conversa com pessoas interessadas na espiritualidade e nos oráculos.

Entretanto, assumir essa identidade também significa lidar com as interpretações e os julgamentos de outras pessoas.

As três acusações de bruxaria que relata ter enfrentado em sua cidade são, para ela, um exemplo de como a imagem da bruxa pode mudar radicalmente conforme o contexto. Em uma festa, desperta curiosidade e admiração. Na vida real, pode se tornar motivo de difamação e hostilidade.

Sua indignação não está em ser reconhecida como bruxa. Está em ser julgada ou atacada por isso.

Afinal, existe uma diferença enorme entre escolher uma fantasia por diversão e conviver com os rótulos que outras pessoas impõem a quem assume essa identidade todos os dias.

Baralho Cigano, Runas das Bruxas e cafeomancia: o trabalho além do mistério

A espiritualidade também faz parte da vida profissional de Geovanna. Como cartomante, ela trabalha com três práticas oraculares: Baralho Cigano, Runas das Bruxas e cafeomancia.

O Baralho Cigano utiliza cartas e combinações simbólicas em leituras voltadas a diferentes questões da vida. As Runas das Bruxas trabalham com símbolos próprios, interpretados dentro da prática oracular. Já a cafeomancia consiste na leitura simbólica das formas observadas na borra de café.

São métodos diferentes, cada um com suas particularidades, que integram seu trabalho com os oráculos.

Para além da imagem popular de uma bruxa cercada de velas e cartas, existe uma profissional que dedica seu trabalho à interpretação desses símbolos e ao atendimento de pessoas que procuram suas consultas.

Geovanna também atua como tatuadora, reunindo em sua trajetória duas áreas profissionais que fazem parte de sua expressão pessoal.

Sua atuação mostra que a mulher por trás do nome Portal da Bruxa não se resume ao imaginário místico. Ela também é uma profissional que constrói sua marca, desenvolve seus serviços e compartilha seus conhecimentos com o público.

O Despertar do Baralho: ela também ensina outras cartomantes

O trabalho da Bruxa não termina quando uma consulta acaba. Ela também é criadora do curso O Despertar do Baralho, voltado a pessoas que desejam aprender a interpretar as cartas e desenvolver suas habilidades com o Baralho Cigano.

A proposta vai além da memorização dos significados individuais. O curso trabalha a interpretação das combinações, o desenvolvimento da intuição e a compreensão das mensagens durante uma leitura, além de abordar ética, limites e responsabilidade na prática oracular.

A iniciativa amplia sua atuação: além de atender consulentes,Bruxa (Geovanna Reis) compartilha conhecimentos com outras pessoas que desejam aprofundar seus estudos e construir sua própria trajetória como cartomantes.

O projeto representa outra dimensão de seu trabalho com a espiritualidade, conectando aprendizado, prática e desenvolvimento profissional.

Assim, Portal da Bruxa reúne diferentes frentes: os atendimentos com oráculos, a tatuagem, a produção de conteúdo como influencer e o ensino por meio de sua formação.

Não é apenas sobre cartas, símbolos ou estética. É também sobre transformar conhecimentos em trabalho, compartilhar experiências e construir uma identidade profissional própria.

Influencer: quando a internet se torna espaço de expressão

Nas redes sociais, a Geovanna Reis utiliza sua presença como influencer para compartilhar conteúdos relacionados à sua identidade, à espiritualidade e ao seu trabalho.

A internet permite que histórias antes restritas a determinados círculos encontrem públicos maiores. Também abre espaço para que pessoas que convivem com estereótipos apresentem suas próprias perspectivas, em vez de serem definidas apenas pelas representações criadas por terceiros.

No caso de Portal da Bruxa, sua comunicação aproxima o público dos oráculos e mostra diferentes aspectos de sua atuação profissional.

Ao expor sua identidade e suas experiências, ela também contribui para colocar em discussão o preconceito associado à bruxaria e a contradição entre a popularidade de sua estética e a realidade de quem vive essa identidade.

A mulher que aparece nas redes não é uma personagem criada para o Halloween. É uma profissional que atua como cartomante e tatuadora, ensina outras cartomantes e utiliza a comunicação digital para ampliar o alcance de seu trabalho.

Sua história acrescenta uma dimensão pessoal a essa presença pública: por trás da marca existe uma mulher que carrega lembranças, convicções, experiências difíceis e o desejo de ser reconhecida para além dos estereótipos.

A bruxaria não precisa da aprovação de todos

No Brasil, a liberdade de consciência e de crença é protegida pela Constituição Federal. O respeito à diversidade espiritual é parte de uma sociedade em que as pessoas não precisam compartilhar as mesmas convicções para reconhecer a dignidade umas das outras.

Isso não significa que todos devam acreditar na bruxaria, concordar com suas práticas ou adotar a mesma visão de mundo.

Significa que a diferença não deve servir de justificativa para humilhação, intimidação, difamação ou perseguição.

A experiência relatada por Geovanna (Bruxa) chama a atenção para essa fronteira. Uma pessoa pode ter dúvidas, discordar de uma crença ou não compreender determinada prática. O que não deveria acontecer é transformar essa diferença em motivo para atacar quem a vive.

A discussão sobre o Halloween, portanto, ultrapassa o campo das fantasias. Ela convida o público a refletir sobre a maneira como a sociedade trata aquilo que considera diferente e sobre a responsabilidade de não transformar preconceitos em verdades sobre outras pessoas.

Uns vestem a fantasia uma vez por ano. Outras vivem essa identidade todos os dias.

Talvez essa seja a maior contradição do Halloween contemporâneo.

Durante uma noite, alguém pode vestir preto, colocar um chapéu pontudo, publicar uma fotografia com cartas e velas e receber elogios pela criatividade. A imagem da bruxa é admirada, compartilhada e transformada em tendência.

Mas quem assume essa identidade durante os 365 dias do ano pode descobrir que a admiração nem sempre se transforma em respeito.

É nesse ponto que a história de Geovanna Reis ganha força. Sua relação com a bruxaria começou na infância, acompanhou o desenvolvimento de sua espiritualidade e se tornou parte de sua atuação profissional. Ao mesmo tempo, ela relata ter enfrentado três acusações de bruxaria em sua própria cidade.

Sua trajetória não representa todas as pessoas que se identificam como bruxas, mas evidencia uma contradição que merece ser discutida: celebrar uma estética não é o mesmo que respeitar as pessoas associadas a ela.

Quando uma identidade é considerada interessante apenas enquanto fantasia, mas se torna motivo de julgamento quando é vivida de verdade, o problema não está na pessoa que a assume. Está na incapacidade de parte da sociedade de conviver com a diferença.

O Halloween pode ser uma oportunidade para celebrar, conhecer histórias e explorar o imaginário. Também pode ser um convite para olhar além das fantasias e questionar os preconceitos que permanecem escondidos por trás delas.

Quando outubro acaba, a bruxa continua

As festas passam. As fantasias voltam para os armários. As decorações são retiradas e o calendário segue para a próxima comemoração.

Geovanna Reis, porém, continua sendo A Bruxa.

Continua sendo a mulher que recorda o apelido dado pela avó Gislene, a cartomante que trabalha com Baralho Cigano, Runas das Bruxas e cafeomancia, a tatuadora, a influencer e a criadora do curso O Despertar do Baralho, por meio do qual compartilha seus conhecimentos com outras cartomantes.

Continua também sendo alguém que escolheu falar publicamente sobre as acusações que relata ter enfrentado e sobre o preconceito que considera necessário combater.

Sua história nos lembra que a bruxaria não deve ser reduzida a uma fantasia, assim como nenhuma pessoa deveria ser reduzida aos julgamentos que os outros fazem dela.

No fim, a pergunta mais importante não é se você acredita na bruxaria. É se consegue respeitar alguém que vive uma espiritualidade diferente da sua.

Porque vestir uma fantasia de bruxa por uma noite é uma escolha. Respeitar quem vive essa identidade durante os 365 dias do ano deveria ser o mínimo.

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