Às vésperas da Copa do Mundo, a Netflix estreia “Brasil 70: A Saga do Tri”, série que revisita a conquista do tricampeonato mundial da Seleção Brasileira em 1970. No elenco, o ator Felipe Oládélè interpreta o goleiro Moacir Barbosa, personagem central para compreender não apenas a história do futebol brasileiro, mas também as marcas do racismo estrutural atravessadas pelo esporte. Apesar do sucesso consolidado na carreira, Barbosa carregou sozinho, durante décadas, o peso da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 50, se tornando um retrato das contradições de um país que transforma ídolos em culpados.
Segundo Felipe, “a dimensão do esporte coloca uma lupa muito grande sobre a vida das pessoas. Entrar em contato com a trajetória do Barbosa foi entender de forma profunda como uma sociedade pode desumanizar alguém e apagar toda uma história por causa de um único episódio. Para pessoas negras, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e outros grupos minorizados, o peso do erro é maior, não existe espaço para falhar”, afirma.
A escalação de Felipe para o projeto começou com o envio de um self-tape em que o ator demonstrava suas habilidades no futebol. Depois, foi chamado para testes presenciais que reuniam cenas de atuação e provas mais específicas. “O teste foi bem próximo de algumas habilidades fundamentais que um jogador precisa ter em campo. Envolvia tanto preparo físico quanto habilidade com a bola. De certa forma, como ator, a gente também precisa cuidar muito do corpo, claro, guardadas as devidas proporções, porque não é a preparação de um jogador profissional. Eu gosto de pensar que o futebol tem um pouco de dança, são movimentos, explosões, ritmo, improviso. É esporte, mas também existe uma certa coreografia”, comenta.
Depois da aprovação, Felipe intensificou a rotina com o futebol e mergulhou em pesquisas sobre a trajetória de Barbosa, buscando compreender não apenas sua carreira no esporte, mas também o impacto dessa história no imaginário brasileiro. Durante o processo, uma descoberta marcou especialmente o ator: saber que, anos depois da derrota, Barbosa foi impedido de visitar a concentração da Seleção Brasileira na Granja Comary.
“O que mais me exigiu preparação foi a dimensão emocional desse personagem. Recriar a cena daquele gol no Maracanã lotado e saber que, a partir daquele momento, a vida do Barbosa mudaria para sempre até o seu último dia, não foi algo fácil de absorver. Então eu precisava conseguir acessar esse peso, essa dor e toda carga simbólica que ele carregou por tantos anos”, revela.
Apaixonado por futebol desde a infância, Felipe cresceu em Belo Horizonte acompanhando os jogos do Atlético Mineiro ao lado da família e guarda lembranças afetivas das Copas do Mundo. “Durante muitas Copas, eu assistia aos jogos no prédio da minha avó, junto com amigos e vizinhos. Tenho memórias muito fortes da Copa de 94 e da de 2002. O futebol sempre foi esse lugar de encontro, de conexão com as minhas raízes, aquilo deixava de ser só um jogo e virava uma experiência coletiva, quase um ritual.”, afirma. Hoje morando no Rio de Janeiro, Felipe segue acompanhando o Atlético semanalmente e mantém hábitos que atravessam gerações, como escutar jogos no rádio, tradição herdada do avô.
Para o ator, “Brasil 70: A Saga do Tri” vai além do universo esportivo e usa o futebol como ponto de partida para revisitar diferentes camadas da história brasileira. “O futebol, no Brasil, nunca foi só futebol. Ele fala sobre identidade e sobre a forma como o país constrói seus heróis e seus culpados. Talvez o mais bonito e também o mais duro seja perceber que, por trás de uma seleção histórica e de um momento de celebração, existem questões humanas muito complexas, que falam sobre poder, pertencimento, exclusão, memória e afeto. Acho que Brasil 70 revela um pouco disso: que, no fundo, quando o Brasil entra em campo, é sempre muito mais do que um jogo.”, conclui.

