“O Último Turno” estreia na Funarte

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Novo espetáculo do grupo Nós Três expõe as relações de trabalho e o humor ácido da vida sob a lógica da produtividade

O grupo de teatro Nós Três mergulha nas engrenagens do mundo corporativo em seu terceiro espetáculo, “O Último Turno”, que entra em cartaz na Funarte, de 17 a 21 de junho. A montagem coloca o público dentro de uma empresa que opera ininterruptamente, onde a produtividade é a única lei. A trama acompanha Pablo, Flávia e Miguel no dia a dia de trabalho e expõe a precariedade física e emocional imposta pelo sistema, revelando como a lógica capitalista transforma cada indivíduo em uma microempresa em constante competição consigo mesmo.

O espetáculo se debruça sobre as relações de trabalho, e a dramaturgia amplia o cotidiano até o limite para discutir temas urgentes. “Precisamos debater sobre a ‘uberização do trabalho’. As pessoas percebem que estão usando o tempo de vida apenas para trabalhar, mas não conseguem modificar a realidade. A lógica do mercado diz que cada um é uma microempresa e você precisa crescer. O que é crescer hoje?”, questiona Lucas Lopes Valadares, que assina o texto e está em cena ao lado dos atores Bruna Félix e Dhan Lopes. A resposta a essa pergunta ecoa no palco por meio de regras absurdas, entrevistas corporativas e a sensação de disponibilidade eterna, simbolizada pela empresa que nunca fecha as portas.

É sob a ótica do teatro do absurdo que o diretor Paulo Maffei molda a encenação, conferindo ao dispositivo central da peça uma potência visual e sensorial. Para traduzir a opressão em cena, ele aposta em uma linguagem estética que tensiona o ambiente. “Trouxe como proposta irmos nos limites do absurdo com muitos materiais de escritório. Trabalhar o excesso no palco. A cada cena o espetáculo vai ficando mais sobrecarregado de coisas”, comenta Maffei. O acúmulo caótico ganha moldura e ritmo por transições de tempo coreografadas, onde o jogo entre atores e materiais de cena fortalece o texto e cria contrapontos. “A plasticidade da imagem acontece de forma muito afinada com a equipe. O objetivo é criar uma experiência sensorial, que faça o espectador sentir, através da linguagem cênica, o esgotamento dos personagens, de modo que as materialidades e o próprio acontecimento teatral construam uma narrativa através da ação, caminhando e desdobrando a dramaturgia textual”, afirma.

Apesar da dureza do tema, o elenco encontra na ironia e no humor ácido o contraste necessário para criar identificação. Bruna Félix ressalta que os três personagens, embora lidem de formas distintas com as condições de trabalho, acabam se reconhecendo. “São situações que certamente muita gente já viveu ou presenciou. O espetáculo coloca uma lupa sobre acontecimentos normalizados todos os dias em empresas, e não tem como não rir disso e não se reconhecer, mesmo que sejam absurdos”, diz. Dhan Lopes complementa ao destacar a direção. “Maffei tem uma visão cênica e estética muito afinada, e um cuidado grande com a plasticidade e a linguagem nas cenas. É uma direção quase cinematográfica”, acrescenta.

A peça mostra três proletários dentro do mesmo sistema, mas, no decorrer da trama, “algo acontece e coloca suas relações em perspectiva de explorados pelo trabalho”, revela Paulo Maffei, reforçando que a peça não oferece respostas fáceis, mas provoca reflexões sobre as relações de trabalho na atualidade.

SOBRE O GRUPO NÓS TRÊS DE TEATRO

O Grupo Nós Três (@nostresgrupo) é formado por Bruna Félix, Dhan Lopes e Lucas Lopes Valadares, atores nascidos e criados na periferia de Belo Horizonte. Fundado em 2019 e consolidado oficialmente em 2023, o coletivo estreou em 2024 com o espetáculo “Top Summer Hits”, com dramaturgia e direção de Vinicius de Souza, que narra a história de três jovens do interior de Minas Gerais que se mudam para a capital no final dos anos 1990. Em 2025, o grupo expandiu suas atividades, ministrando as primeiras edições das Oficinas de Dramaturgia e de Formação em Acessibilidade para Projetos Culturais, além do Laboratório de Dramaturgia, também em parceria com Vinicius de Souza. No mesmo ano, desenvolveu e apresentou seu segundo espetáculo, “Banho de Chuva”, uma obra de dramaturgia autoral dirigida por Lucas Fabrício, com assistência de direção de Júlia Camargos. Atualmente, o Grupo Nós Três foca sua pesquisa na dramaturgia autoral e no protagonismo de pessoas pretas, periféricas e LGBTQIAPN+, tanto nas narrativas cênicas quanto na produção teatral em geral. Além disso, o coletivo investiga linguagens e estéticas cênicas que mesclam estruturas narrativas tradicionais com abordagens pós-dramáticas e contemporâneas, sempre buscando promover políticas de democratização de acesso e acessibilidade cultural.

Serviço

Estreia “O Último Turno” – Grupo Nós Três de Teatro

Local: Funarte MG (Rua Januária, 68, Centro, Belo Horizonte)

Data: de 17 a 21 de junho

Horários: quarta a sexta, às 19h30 | Sábado, às 17h e 19h30 | Domingo às 18h30

Ingressos: a partir de R$ 15

Venda: bilheteria da Funarte e plataforma Sympla

Acessibilidade: Todas as sessões contam com intérprete de Libras.

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Cenario Minas
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