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Grupo dos Dez faz apresentação única em BH

O Grupo dos Dez, companhia mineira referência no teatro negro brasileiro, retoma aos palcos de Belo Horizonte com apresentação única do premiado “Madame Satã”, dirigido por João das Neves e Rodrigo Jerônimo, no dia 1° de março, às 18h, no Sesc Palladium. Os ingressos custam R$10,00 (dez reais) inteira e R$5,00 (cinco reais) meia-entrada e podem ser adquiridos através do Sympla. A apresentação faz parte do projeto “Grupo dos Dez – 15 anos de Teatro Negro”, aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, com a realização Ministério da Cultura, Governo do Brasil – do lado do povo brasileiro e apresentação da Petrobras que prevê mais de 60 apresentações em sete estados, reunindo obras inéditas, espetáculos consagrados e ações formativas que ampliam o diálogo entre arte, memória e território. Entre elas, a estreia do novo espetáculo cênico do grupo, “Afroapocalíptico”, prevista para o dia 16 de março, no Palácio das Artes. A nova peça parte da cosmovisão do congado mineiro para construir uma experiência artística imersiva, sensorial e política.

Madame Satã é o terceiro espetáculo do Grupo dos Dez, no qual a companhia se vale da biografia de um dos mais peculiares personagens da cultura negra brasileira, João Francisco dos Santos, para dialogar com questões que permeiam a crítica à homofobia, à transfobia e ao racismo. O musical traz à tona não apenas a biografia de Satã, mas dá visibilidade aos invisíveis da sociedade que não se enquadram na heteronormatividade vigente.

A montagem realizada ao longo do ano de 2014, dentro do projeto Oficinão do Galpão, em Belo Horizonte, estreou em 2015 e seguiu até 2019 com apresentações em várias capitais brasileiras com grande sucesso de público e crítica. Dentre os reconhecimentos, estão o Prêmio Brasil Musical 2019 – 2ª edição (melhor espetáculo musical Sudeste) e o Prêmio Leda Maria Martins 2017 (categoria melhor espetáculo).

Como tantos outros coletivos de teatro independente, o grupo enfrentou momentos de suspensão e incertezas pós-pandemia, mas o seu retorno a Belo Horizonte, que recebeu pela última vez o espetáculo em 2018, no Aquilombô – Fórum Permanente de Artes Negras, traz consigo o desejo de expandir fronteiras, descolonizar narrativas e reafirmar o teatro negro como pilar fundamental da cultura brasileira.

Rodrigo Jerônimo, que assina co-direção e dramaturgia de Madame Satã e coordena o projeto em celebração aos 15 anos do grupo, ressalta que a retomada da companhia aos palcos tem um profundo valor simbólico: “chegar aos 15 anos significa olhar para trás e reconhecer tudo o que conquistamos, mas também reafirmar que nosso trabalho só ganha sentido quando é capaz de criar coletivamente e transformar realidades.”

Já Bia Nogueira, artista e diretora musical do espetáculo, destaca que a retomada consolida uma vocação que sempre esteve no centro da companhia:  fazer da arte um meio para abrir espaços de encontro, escuta e pertencimento. “Estar de volta com essa temporada é potencializar vozes que refletem o Brasil em toda a sua diversidade e afirmar que a arte deve ser acessível a todas as pessoas.”

Madame Satã é o único espetáculo de João das Neves (1935-2018) ainda em cartaz, dos mais de 40 dirigidos pelo diretor ao longo de sua extensa e produtiva trajetória no teatro brasileiro. A relação entre João e o Grupo dos Dez é, indiscutivelmente, um dos pilares simbólicos e estruturantes da trajetória da companhia. Ele acompanhou de maneira ativa o processo de criação e consolidação do Grupo dos Dez: dirigiu espetáculos, orientou ensaios, partilhou processos e contribuiu diretamente para o fortalecimento da linguagem cênica da companhia.

“A gente tem brincado que o João das Neves não gostava de ser chamado de mentor. Então, eu estou chamando João de farol. Porque ele orienta, direciona as nossas decisões enquanto cerne criativo. No meu caso, especialmente, o João me ensinou a ver a cultura brasileira e o povo trabalhador brasileiro como protagonista das suas próprias histórias. O João está impregnado em mim de uma maneira irreversível. Mesmo que eu tentasse sair pela tangente de João das Neves, as minhas decisões todas têm a ver com o que ele me ensinou sobre a magia do teatro, essa coisa deslumbrante”, diz Rodrigo Jerônimo.

O artista destaca ainda as mudanças feitas no espetáculo ao longo do tempo em cartaz: “Assistir a este espetáculo é aceitar um convite ao deslocamento e à escuta atenta de histórias que a sociedade insiste em empurrar para as margens. Ao acompanhar a trajetória de Madame Satã, o público é confrontado com tensões que não pertencem apenas ao passado, mas que seguem estruturando o presente. A cada apresentação, temporada ou reflexão que fazemos sobre o espetáculo, percebemos a necessidade da atualização da dramaturgia. Apesar de discursos de ódio estarem impregnados em nossa sociedade desde os primórdios, é importante mostrar que os crimes permanecem impunes e continuam acontecendo no Brasil, como o assassinato do povo negro, indígena e de LGBTs”.

Sobre o Grupo dos Dez

Criado em 2009, o Grupo dos Dez consolidou-se como referência nacional ao investigar a interseção entre o teatro negro e o teatro musical tipicamente brasileiro, forjado na riqueza das tradições populares do Brasil. Ao longo de sua trajetória, a companhia lançou luz sobre temáticas urgentes: a homoafetividade, os desafios enfrentados pela população negra brasileira, a luta das mulheres e o enfrentamento a todas as formas de opressão LGBTQIAPN+. Suas obras ecoam memórias coletivas, cantos ancestrais e narrativas historicamente silenciadas.

Nascido do ímpeto criativo de sete artistas determinados a pesquisar uma linguagem musical que tivesse como matriz a cultura brasileira e as culturas africanas e indígenas, o grupo encontrou na orientação do dramaturgo João das Neves e da cantora Titane o acolhimento e o rigor necessários para lapidar um modo próprio de estar em cena, marcado pelo sotaque, pelo corporeidade e pela sensibilidade mineira. Ainda em 2009, subiu pela primeira vez ao palco no 1º Festival de Musicais de Belo Horizonte, apresentando Sagas no País das Gerais, dirigido pelos dois mestres que acompanharam o nascimento da companhia.

Em seus 15 anos de existência, o Grupo dos Dez estreou também Evangelho Bárbaro (Elisa Santana e Marcelo Onofre), Madame Satã (João das Neves e Rodrigo Jerônimo) e Dandara para Todas as Mulheres (Bia Nogueira). Somam-se a isso as colaborações nas montagens de Rueiros (Rodrigo Jerônimo e Bia Nogueira), Chico Rei (Companhia Pé de Pano), Todos os Animais são Iguais (Companhia Sobrilá) e Filofobia (Rodrigo Jerônimo).

A companhia e seus integrantes também são responsáveis por iniciativas que fortalecem a cultura afroindígena brasileira, como o Aquilombô – Fórum Permanente de Artes Negras (2018 ao presente), o Festival Imune (2016 ao presente) e o Laboratório Editorial Aquilombô (2017 ao presente). Com essas ações, o grupo consolida-se como um importante ponto de promoção da empregabilidade negra LGBTQIAPN+ no teatro, na literatura e na música, abrindo caminhos para novas vozes e para obras que, muitas vezes, não encontram espaço no setor cultural tradicional.

Assim, ao mesmo tempo em que cria espetáculos, o Grupo dos Dez também semeia territórios de memória, formação e futuro. E tece, com técnica e poesia, um legado que celebra a ancestralidade, impulsiona novas narrativas e reafirma a potência transformadora do teatro negro brasileiro.

Sinopse de Madame Satã

Um espetáculo poético e político sobre a luta de invisíveis. Madame Satã é o terceiro espetáculo do Grupo dos Dez, que se dedica à pesquisa de linguagem sobre o teatro musical e suas possibilidades. Em Madame Satã, o grupo se vale da biografia de um dos mais peculiares personagens brasileiros para dialogar com questões que permeiam a crítica contra a homofobia e o racismo. João Francisco dos Santos, o Madame Satã, nasceu em 1900 na Bahia e viveu no Rio de Janeiro  durante quase toda sua vida, especificamente no bairro da Lapa, zona boêmia carioca. Era reconhecidamente o estereótipo do malandro, conviveu com quase todos os principais sambistas notórios do Rio de Janeiro, passou pela prisão por várias vezes, se transformando em uma das figuras mais peculiares da nossa cultura.  O espetáculo discute a diversidade da cultura brasileira nos seus mais diversos aspectos, tanto na cultura popular quanto nas questões étnicas e a respeito da diversidade de gênero.

SERVIÇO

Grupo dos Dez retorna a BH com apresentação única de Madame Satã

Data: 1° de março, domingo

Horário: 18h

Local: Sesc Palladium (será no Grande Teatro?)

Ingressos no Sympla: R$10,00 (dez reais) inteira e R$5,00 (cinco reais) meia-entrada

Classificação: 16 anos

Mais informações: @grupodosdez

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