“Arte em Grandes Formatos” explora relações entre pintura

0
12

A escala como elemento de construção e percepção da imagem orienta a exposição Arte em Grandes Formatos, em cartaz no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte, até 24 de janeiro de 2027. Com trabalhos de Tomie Ohtake, Luiz Zerbini, Lauren Quin e Aislan Pankararu, a mostra aproxima trajetórias e repertórios distintos, colocando em diálogo diferentes maneiras de investigar a cor, organizar a superfície e relacionar a pintura à paisagem, à memória e à identidade.

Nas obras de grandes dimensões, o olhar alterna entre a percepção do conjunto e a descoberta dos detalhes. Campos de cor, texturas, gestos e padrões estabelecem relações que se modificam conforme a distância do observador. A escala participa dessa experiência: amplia a presença da imagem no espaço e evidencia tanto a estrutura das composições quanto os procedimentos de sua construção.

“Embora partam de contextos distintos, os artistas compartilham o desejo de expandir os limites da linguagem visual, criando composições que convidam o espectador a olhar para além do que é imediatamente reconhecível. É justamente nesse encontro entre aproximações e diferenças que reside a potência desta exposição”, destaca Vitor Camarano, coordenador artístico e educativo do Museu Inimá de Paula.

A presença de Tomie Ohtake ganha destaque em uma obra de 2,80 metros, na qual a relação entre forma e cor adquire dimensão espacial e corporal. Sua pesquisa combina equilíbrio, movimento e profundidade, aproximando a organização da superfície da liberdade do gesto. Formas aparentemente simples guardam relações cuidadosamente construídas, em uma pintura que explora as tensões entre racionalidade e sensorialidade.

Nascida em Quioto, no Japão, em 1913, Tomie chegou ao Brasil em 1936 e iniciou sua trajetória na pintura em 1952, aos 39 anos. Ao longo das décadas, desenvolveu uma produção que abrange pintura, gravura, escultura e obras públicas, tornando-se uma referência da abstração no país. Em sua trajetória pictórica, a experimentação com formas e campos cromáticos se desdobrou em diferentes modos de trabalhar a matéria e a luz. A partir dos anos 1980, a adoção gradual da tinta acrílica favoreceu a sobreposição de camadas fluidas e a investigação de transparências e profundidades.

Luiz Zerbini, nascido em São Paulo, em 1959, integra a Geração 80 e desenvolve uma trajetória que atravessa pintura, escultura, fotografia, vídeo e gravura. Em sua pesquisa pictórica, a vegetação e a paisagem se entrelaçam a grades, estruturas geométricas e ritmos cromáticos. Folhagens e formas orgânicas convivem com construções modulares, estabelecendo tensões entre a proliferação da natureza e a ordenação da imagem.

Ao articular esses repertórios, Zerbini revisita a tradição da paisagem e o legado da abstração modernista brasileira, relacionando-os a questões ecológicas e às maneiras de representar o mundo. Texturas, repetições e sobreposições conduzem o olhar por composições densas, nas quais elementos reconhecíveis convivem com estruturas abstratas. Sua produção integra coleções como as do Inhotim, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, do Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Itaú Cultural.

Lauren Quin, nascida em Los Angeles, em 1992, encara a pintura como um processo de investigação contínua. Suas composições partem de formas que se repetem, se cruzam e se transformam pela sobreposição. Faixas de cor com aparência tubular criam diferentes centros de atenção e relações instáveis entre profundidade e plano, enquanto imagens provenientes de seu arquivo de desenhos são incorporadas à superfície por processos de monotipia.

A artista também intervém na tinta ainda úmida, abrindo linhas e sulcos que revelam outras camadas cromáticas. Esse procedimento aproxima desenho, impressão e gesto pictórico, fazendo da superfície um espaço de construção e descoberta. Quin concluiu o bacharelado em Belas Artes na School of the Art Institute of Chicago, em 2015, e o mestrado na Yale School of Art, em 2019.

Na produção de Aislan Pankararu, a pintura constitui um espaço de elaboração da memória e de reencontro com sua cultura. Nascido em Petrolândia, em Pernambuco, em 1990, o artista pertence ao povo Pankararu e retomou o desenho e a pintura em 2019, durante sua formação em Medicina na Universidade de Brasília. Sua pesquisa reúne referências da pintura corporal de seu povo e formas orgânicas que também dialogam com o estudo do corpo humano. Pontos, linhas e movimentos recorrentes organizam composições nas quais os conhecimentos ancestrais participam da construção de uma linguagem contemporânea.

Os deslocamentos entre Pernambuco, Brasília e São Paulo atravessam sua trajetória e sua relação com essas referências. Em trabalhos sobre papel kraft, por exemplo, o uso de argila branca retoma a relação cromática entre a pintura corporal e a pele. A ancestralidade se manifesta nas escolhas de materiais, nos procedimentos e nos ritmos da imagem, articulando experiências pessoais e conhecimentos coletivos. Sua produção integrou a 36ª Bienal de São Paulo, em 2025.

Três exposições ocupam o Museu Inimá de Paula

“Arte em Grandes formatos” integra a nova programação do Museu Inimá de Paula, que reúne simultaneamente três exposições e aproxima artistas, gerações e diferentes maneiras de construir a imagem. Também estão em cartaz, até 24 de janeiro de 2027, “José Adario — Raiz de Ferro” e “Aldir Mendes – Geometria do olhar”. A visitação é gratuita.

Com curadoria de Alana Silveira, “Raiz de Ferro” apresenta a produção de José Adario dos Santos, conhecido como Zé Diabo, ferreiro e artista cuja trajetória se relaciona há mais de cinco décadas ao Candomblé e à criação de ferramentas sagradas dos orixás, esculturas, portões e instrumentos de percussão. A mostra evidencia como o ferro articula o conhecimento do ofício às referências da cosmologia do Candomblé e da arte iorubá. Nascido em Salvador, Adario teve contato com a ferraria ainda na infância e, aos 11 anos, começou a frequentar a oficina de Maximiano Prates, na Ladeira da Conceição da Praia, onde trabalha até hoje. A exposição resulta de uma pesquisa de quatro anos conduzida pela curadora, que acompanhou de perto o cotidiano e a prática do artista. Em 2023, Adario recebeu o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes.

Já “Geometrias do Olhar” percorre mais de quatro décadas da produção de Aldir Mendes de Souza, médico, artista autodidata e pesquisador de diferentes linguagens. A seleção reúne trabalhos produzidos entre as décadas de 1960 e 2000 e acompanha as transformações de uma obra em que geometria, percepção e experimentação se encontram. Ao longo da trajetória, Aldir incorporou à prática artística materiais como radiografias e termografias e, nos últimos anos de sua carreira, transformou a própria experiência da doença em matéria para a série “Campos de Batalha”.

Sobre o museu Inimá de Paula

O Museu Inimá de Paula ocupa um edifício histórico na Rua da Bahia, no centro de Belo Horizonte, e tem sua atuação voltada à valorização, preservação e difusão das artes visuais. Sob gestão da Fundação Inimá de Paula, o espaço foi inaugurado em 2008 e desde então desenvolve uma programação que reúne exposições, ações culturais e iniciativas dedicadas à produção artística brasileira.

A história do prédio também faz parte da identidade do museu. Antes de se tornar um espaço dedicado às artes, o imóvel recebeu o Clube Belo Horizonte e o Cine Guarani. Além do acervo dedicado à trajetória de Inimá de Paula, o museu apresenta uma remontagem do ateliê do artista, a Sala de Autorretratos e uma Galeria Virtual que reúne obras catalogadas de sua produção. O espaço também recebe exposições temporárias de artistas e diferentes recortes da arte brasileira e contemporânea.

Com entrada gratuita, o Museu Inimá de Paula recebe visitantes, estudantes e pesquisadores interessados em conhecer a obra de Inimá de Paula e acompanhar as diversas manifestações e debates que atravessam a produção artística brasileira.

SERVIÇO:

Exposição “Arte em Grandes Formatos”

Visitação: até 24 de janeiro de 2027
Horário: Terça, quarta, sexta e sábado: das 10h às 18h30; Quinta-feira: das 12h às 20h30; Domingos e feriados: das 10h às 16h30
Local: Museu Inimá de Paula
Endereço: Rua da Bahia, 1.201, Centro, Belo Horizonte (MG)
Ingressos: Gratuito
Instagram: @museuinimadepaula

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here