Queda do estradiol desregula o controle térmico e pode afetar sono, humor e até mesmo a saúde cardiovascular das mulheres
A menopausa impõe uma transição fisiológica marcada por alterações hormonais que afetam diferentes sistemas do organismo. Entre os sintomas mais conhecidos estão as ondas de calor, chamadas clinicamente de fogachos. Embora muitas vezes tratadas como um desconforto passageiro, elas têm impacto relevante na qualidade de vida e podem sinalizar alterações metabólicas e cardiovasculares associadas ao período.Segundo a Organização Mundial da Saúde, a maioria das mulheres experimenta sintomas vasomotores durante a transição menopausal. Já estudos epidemiológicos citados pela Study of Women’s Health Across the Nation indicam que entre 60% e 80% das mulheres relatam ondas de calor em algum momento do climatério.“Os fogachos resultam da queda do estradiol, principal forma de estrogênio produzida pelos ovários. O hormônio exerce papel central na regulação do centro de controle da temperatura corporal, localizado no hipotálamo. Quando seus níveis diminuem, o termostato cerebral torna-se instável e passa a interpretar pequenas variações térmicas como se fossem um superaquecimento. O organismo reage com dilatação dos vasos sanguíneos cutâneos, aumento do fluxo de sangue e sudorese intensa. A sensação típica é de calor súbito acima do pescoço, rubor facial e transpiração, muitas vezes seguida de calafrios e mal-estar”, explica a médica ginecologista Roberta Brando, especialista em estética íntima e terapia hormonal feminina.Esse exemplo é tão clássico que, recentemente, viralizou nas redes sociais um vídeo de uma mulher literalmente com a cabeça saíndo fumaça. No caso dessa personagem uma possível explicação é que a onda de calor pela qual ela passava foi suficiente para evaporar o suor do seu próprio corpo. Veja o vídeo e entenda:
https://www.instagram.com/p/DUT2ClGkeop/.“Durante a menopausa, a queda do estrogênio desregula o centro de controle da temperatura no cérebro. O calor surge de forma abrupta, pode vir acompanhado de taquicardia e sensação de mal-estar. Não é frescura, não é psicológico. Episódios frequentes também fragmentam o sono, geram cansaço crônico e afetam memória e concentração”, completa a médica.A literatura científica sustenta essa associação e eleva tais situações muito adiante e podem afetar até a saúde cardíaca. Uma pesquisa publicada no periódico da North American Menopause Society identifica relação entre fogachos intensos, maior ativação do sistema nervoso simpático e piora de marcadores de saúde vascular. Já estudos observacionais conduzidos por pesquisadores vinculados ao National Institutes of Health indicam que sintomas vasomotores persistentes podem estar associados a maior risco cardiovascular, especialmente quando acompanhados de distúrbios do sono.“A doença cardiovascular é a principal causa de morte entre mulheres após a menopausa, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Nesse contexto, os fogachos deixam de ser apenas um desconforto térmico e passam a integrar um quadro de alterações sistêmicas relacionadas à deficiência estrogênica. Outro ponto relevante é o início dos sintomas. A transição pode começar a partir dos 40 anos, mesmo com ciclos menstruais ainda presentes. Nem todas as mulheres apresentarão ondas de calor. Muitas relatam inicialmente insônia, irritabilidade, lapsos de memória, fadiga e queda de rendimento físico e mental”, acrescenta Dra. Roberta.Quanto ao manejo, a recomendação é por avaliação individualizada. A terapia hormonal é considerada o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores moderados a intensos, conforme posicionamento oficial da North American Menopause Society e de sociedades médicas europeias. Quando iniciada na chamada janela de oportunidade, ainda no climatério e em mulheres sem contraindicações, a intervenção pode trazer benefícios adicionais, inclusive na proteção óssea e cardiovascular.“Um médico é essencial nessa etapa da vida porque a indicação não depende exclusivamente de exames laboratoriais. A decisão é clínica. Avaliamos idade, sintomas e histórico de saúde. Exames são importantes para acompanhamento, mas não substituem a escuta qualificada. Há, inclusive, alternativas não hormonais para mulheres com contraindicação à terapia estrogênica, além de mudanças de estilo de vida que ajudam a reduzir a frequência e a intensidade dos episódios”, orienta a especialista.Entre as medidas recomendadas estão a prática regular de atividade física, controle do peso, redução do consumo de álcool e cafeína, cessação do tabagismo e manutenção de ambiente fresco para dormir. Técnicas de respiração e manejo do estresse também demonstram benefício em parte das pacientes.“O consenso entre nós especialistas é que os fogachos não devem ser naturalizados como preço inevitável do envelhecimento. Tratam-se de manifestações clínicas de um processo hormonal complexo, com repercussões que ultrapassam o desconforto momentâneo. Informação qualificada e acompanhamento médico são determinantes para preservar qualidade de vida e reduzir riscos associados à menopausa”, finaliza Dra. Roberta.