Nós, representantes de ligas, associações, blocos de rua e coletivos carnavalescos de Belo Horizonte, manifestamos nosso repúdio às escolhas da gestão pública do Carnaval de Belo Horizonte, que prioriza, valoriza e facilita grandes produtores e iniciativas artísticas de fora de Minas Gerais, em detrimento do fortalecimento e fomento contínuo do fazer cultural local, dos blocos de rua e coletivos da nossa cidade, bem como de toda a nossa cadeia produtiva.
Enquanto os cortejos de rua, diversificados e espalhados por todas as regionais, seguem com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento, assistimos ao anúncio de artistas de projeção nacional na programação oficial, a maioria sem qualquer ligação orgânica com a cena carnavalesca local.
O Carnaval de Belo Horizonte se tornou o terceiro destino turístico do país porque foi erguido pelos seus artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões. Essa festa plural, democrática e segura, que Minas Gerais hoje tanto se orgulha, é fruto de um ecossistema cultural local que, mesmo com apoio escasso e sem políticas públicas permanentes, ensaia, cria e se apresenta durante todo o ano, gerando renda para a cadeia produtiva da cultura.
No entanto, o atual modelo de gestão pública do Carnaval tem priorizado a lógica dos grandes shows, esvaziando os territórios, precarizando trabalhadores da cultura e desvirtuando o espírito comunitário da folia. Tais escolhas não apenas descaracterizam nossa festa, como ameaçam a sustentabilidade econômica e cultural dos agentes que verdadeiramente a constroem. Os blocos e artistas locais convivem com escasso apoio público e a falta de patrocínios privados, mesmo com empresas lucrando enormemente com a cidade lotada de foliões locais e turistas.
O exemplo do show do DJ Alok, ocorrido no Carnaval de 2025 e propagandeado pelo poder público como uma política de sucesso a ser replicada agora em 2026 resultou em episódios graves de violência — duas pessoas esfaqueadas na Avenida Afonso Pena, pânico coletivo pela aglomeração sem controle, esmagamento de foliões em função do local escolhido como trajeto —, evidencia os riscos desse modelo de megaeventos superconcentrados e financiados com recursos públicos.
Repudiamos, portanto, a priorização de megaeventos financiados com dinheiro público em detrimento do fortalecimento estrutural dos realizadores locais. Exigimos transparência nos critérios de aplicação dos recursos, participação social nas decisões e um modelo de Carnaval que valorize e invista nos blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos, que fazem a festa acontecer nas ruas, de forma descentralizada e popular.
Pelo Carnaval de Belo Horizonte feito por quem faz!
Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro)
Associação do Blocos de Rua de Belo Horizonte (ABRA BH)
Liga Belorizontina
Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (BRUTA)
Santa Tereza Independente Liga (Si Liga)