Pedro Ivo Vasconcelos – diretor da Emcorp
Durante muito tempo, investir no interior foi visto como movimento oportunista, quase circunstancial. Hoje, essa leitura já não se sustenta. O que se observa é uma mudança estrutural no mapa imobiliário brasileiro: cidades menores deixaram de ser alternativa e passaram a ocupar posição estratégica nos ciclos de expansão do setor.
O crescimento dos lançamentos fora das capitais não decorre de euforia momentânea. Está diretamente ligado à reorganização econômica do país. Polos industriais, logísticos e tecnológicos vêm se consolidando no interior de estados como Minas Gerais e São Paulo, criando um impacto positivo no desenvolvimento das cidades, através da geração de emprego, renda e demanda habitacional.
Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção indicam crescimento de 12,5% nos lançamentos residenciais no terceiro trimestre de 2025. Parte relevante dessa expansão vem justamente das cidades médias. Minas Gerais oferece exemplos consistentes. João Monlevade, a cerca de 110 quilômetros de Belo Horizonte, mantém mercado ativo sustentado por tradição industrial e ampliação recente da base produtiva. No Sul de Minas, região que concentra 27% dos projetos apoiados pela Invest Minas e mais de 50 mil empregos anunciados, o dinamismo econômico cria ambiente favorável para novos empreendimentos.
Em São Paulo, o movimento ocorre em escala ainda maior. A diferença de preços entre capital e interior é significativa. Enquanto o metro quadrado na capital ultrapassa R$11 mil, no interior gira em torno de R$5.800, Essa margem permite desenvolver produtos com melhor equilíbrio entre valor e qualidade. Campinas ilustra esse cenário, com valor médio de venda na faixa de R$7.500 por metro quadrado e aluguel próximo de R$50, demonstrando liquidez e maturidade de mercado.
Mais do que preço, o que sustenta esse crescimento é a consolidação de infraestrutura, mobilidade e serviços. A pandemia acelerou uma mudança cultural já em curso: famílias passaram a priorizar cidades menos congestionadas, com melhor qualidade de vida e custo-benefício mais racional. O interior deixou de ser opção secundária e passou a integrar o planejamento de longo prazo de quem compra e de quem investe.
Isso não significa ausência de riscos. Crescimento urbano nem sempre é acompanhado pela mesma velocidade de planejamento público. Infraestrutura pode evoluir de forma desigual e a disponibilidade de mão de obra qualificada ainda representa desafio em algumas regiões. Além disso, mercados menores exigem estudos de demanda mais precisos. O erro de posicionamento pesa mais quando a escala é reduzida.
O avanço do interior, portanto, não é fruto de modismo. Trata-se de um redesenho consistente da dinâmica imobiliária brasileira. Onde há geração de emprego, infraestrutura consolidada e planejamento adequado, forma-se demanda orgânica e sustentável. É nesse ponto que o investimento encontra solidez, não na especulação, mas na leitura estratégica de um país que se reorganiza além das capitais.