Kleber Dantas Fundador de OCCA
No artigo “Da engrenagem ao protagonismo: inteligência artificial e a economia da experiência”, argumenta que a automação não desloca apenas empregos, mas o próprio critério de valor na economia. Quando a repetição se torna domínio das máquinas, o humano passa a ser convocado não para executar melhor, mas para interpretar, criar sentido e articular experiências.
Essa transição, no entanto, costuma ser mal compreendida. Fala-se muito em “pensar fora da caixa”, mas pouco em como estruturar o pensamento quando a caixa simplesmente deixa de existir. É aqui que uma tradição antiga, raramente associada ao vocabulário da inovação, oferece uma pista surpreendentemente atual: o método de pensamento do Talmud Babilônico.
Produzido em um contexto de perda radical — sem templo, sem soberania e sem centro político —, o Talmud não é um manual de respostas, mas um sistema rigoroso de perguntas em conflito. Seu traço mais marcante não é a busca por consenso imediato, mas a valorização do dissenso. Opiniões divergentes convivem no texto não como ruído, mas como matéria-prima do raciocínio.
O que isso tem a ver com inovação? Muito mais do que se costuma admitir. Grande parte dos discursos contemporâneos sobre criatividade exalta o pensamento divergente — gerar ideias, multiplicar possibilidades, romper padrões. Mas raramente se detém na outra metade da equação: o pensamento convergente, aquele que organiza, escolhe, decide e transforma multiplicidade em ação concreta. Sem convergência, divergência vira dispersão. Sem divergência, convergência vira repetição. O Talmud opera exatamente nessa dialética. Ele estimula o pensamento divergente ao levar cada hipótese ao limite, explorando exceções, cenários alternativos e contradições internas.
Mas não se encerra aí. Em algum momento, é preciso decidir como agir — e essa decisão, mesmo provisória, emerge do confronto entre posições, não da eliminação precoce do conflito. Essa lógica é central no Berçário de Empreendedores de OCCA. Ali, a formação não começa com planos de negócio nem com respostas prontas sobre mercado.
Começa com perguntas bem formuladas, escuta ativa e fricção de perspectivas. Jovens são estimulados a sustentar ideias opostas, testar hipóteses concorrentes e lidar com ambiguidades reais do território. Divergir não é um problema a ser resolvido rapidamente, mas uma etapa necessária de maturação. Ao mesmo tempo, a divergência não é celebrada como virtude em si. Em algum ponto, é preciso convergir: definir um caminho, assumir riscos, materializar escolhas.
A inovação, entendida aqui, não é o brilho momentâneo da ideia original, mas a capacidade de atravessar o conflito e produzir algo situado, viável e significativo. Essa abordagem contrasta com modelos educacionais ainda presos à lógica da engrenagem: respostas corretas, caminhos únicos, eficiência mensurável.
Em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos — excelentes em reproduzir padrões, mas notoriamente frágeis diante de ambiguidade e contexto —, formar pessoas capazes de sustentar pensamento divergente sem perder a capacidade de convergir tornou-se uma competência estratégica. O paralelo com o Talmud não é ornamental. Trata-se de reconhecer que pensar bem em ambientes instáveis exige método, não improviso. Exige aceitar o conflito sem fetichizá-lo, valorizar o debate sem paralisar a ação. Exige, sobretudo, compreender que inovação não nasce da eliminação da complexidade, mas da capacidade de operar dentro dela.
Se, como sugerido no artigo anterior, a economia da experiência desloca o valor para aquilo que não pode ser automatizado, então a forma como pensamos passa a ser tão relevante quanto o que produzimos. O desafio contemporâneo não é apenas gerar ideias novas, mas formar sujeitos capazes de navegar entre divergência e convergência com responsabilidade, repertório e senso de contexto.
Talvez, nesse ponto, uma tradição intelectual forjada no exílio babilônico do povo judeu, entre os séculos VI e V a.C., fora do poder e em meio à incerteza, tenha algo essencial a ensinar ao vocabulário hoje inflacionado da inovação. Em tempos de inteligência artificial, insistir em respostas rápidas pode ser tentador. Mas formar pensamento capaz de sustentar perguntas difíceis — e decidir apesar delas —e enxergar verdades como camadas de uma cebola, segue sendo um trabalho profundamente humano.