A hora e vez da medicina focada no paciente

0
43

Autor: Ricardo Procópio – cirurgião vascular na Clínica Intervascular

Nas últimas décadas, vivenciamos desenvolvimentos tecnológicos que transformaram de forma permanente a medicina. Aumentamos muito o nosso conhecimento sobre o funcionamento do organismo e hoje podemos, inclusive, mapear genes com uma gota de saliva. Num primeiro momento, isto foi muito sedutor. De certa forma, acreditamos, como médicos e pessoas, que seríamos capazes de evitar quase todas as doenças. Aquelas que não pudéssemos evitar, seriam combatidas com certa tranquilidade.

Mas como isso seria possível? Diagnóstico precoce: criou-se a impressão que qualquer doença, se descoberta bem no início, teria alta chance de cura. Diante do desejo de vivermos mais e sem enfermidades, os exames de diagnósticos, principalmente os de imagem, como o ultrassom, tomografia computadorizada e ressonância ganharam papel de destaque. Tudo estaria resolvido. Bastaria fazer um check up completo anual. Com exames tão avançados, os dias destes males estariam contados – um grande engano.

Primeiramente, começamos a receber pacientes que não sentiam absolutamente nada, sem queixas, mas que traziam exames com alterações. Muitas vezes, diante do quadro, não sabíamos como lidar com grande parte destes achados. Os exames, a solução mágica para todos os nossos problemas, na verdade nos trouxeram muitas dúvidas. A primeira reação, gerada pelo medo e pela falta de conhecimento, foi a de tratar todas as alterações que víamos, gerando um uso de mais medicamentos ou até mesmo de cirurgias desnecessárias. A segunda foi fazer mais exames. Pois se achamos algo no fígado, será que poderíamos encontrar algo no pulmão, por exemplo?

Paralelamente a isto, ao longo do tempo, a consulta clínica foi perdendo valor. Por que conversar e ser examinado se posso logo fazer uma ressonância e descobrir muito mais coisa? As consultas foram se descaracterizando: ao invés de focar nas queixas dos pacientes, baseava-se na conferência dos resultados dos múltiplos exames disponíveis.

Descobrimos mais cedo as doenças e conseguimos tratar mais pessoas. Todos estão mais felizes e saudáveis, certo? Não, ao contrário. Uma grande questão gerada pela medicina focada unicamente em exames é a falsa impressão de segurança. Sabe-se hoje que as doenças precisam de componentes genéticos e ambientais para se desenvolverem. O que os estudos mostram, no entanto, é que os fatores ambientais, e aqui faço um destaque aos nossos hábitos de vida, são os fatores mais importantes na prevenção de qualquer enfermidade.

Mas então não devemos fazer exames? Vamos ignorar tudo que vêm nos laudos? De forma alguma, mas o cuidado deve se iniciar na pessoa, nas suas queixas, nos seus hábitos de vida, no seu dia a dia. Os exames são complementares. Devemos começar a construir um caminho para a saúde do paciente, proporcionando mais qualidade de vida, e não apenas tratar doenças avaliando exames.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here