Inhotim anuncia nova programação com obras de Isaac Julien, Arjan Martins, Laura Belém e Jaime Lauriano   

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Em parceria com IPEAFRO, o Instituto inaugura ainda o Segundo Ato de Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra, com exposição que aborda as origens do museu através do Teatro Experimental do Negro, iniciativa criada por Abdias 

Inhotim inaugura no fim de maio novas obras e exposições temporárias. Dia 28 marca a abertura da temporada, que traz Isaac Julien, importante nome nos campos da instalação e do cinema, convidado a expor um de seus trabalhos mais emblemáticos na Galeria Praça. O Acervo em Movimento, programa criado para compartilhar com o público as obras recém-integradas à coleção, inaugura com trabalhos dos artistas brasileiros Arjan Martins e Laura Belém, ambos instalados em áreas externas do Instituto.

 

Jaime Lauriano também integra a lista dos artistas participantes da programação, e abre o projeto  Inhotim Biblioteca, que vai convidar, anualmente, artistas e pesquisadores que estabeleçam diálogos com a biblioteca do Instituto. A instalação do artista mantém relação direta com o Segundo Ato do projeto Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra (MAN), ao propor a curadoria de uma nova bibliografia que contempla autores negros para integrar o acervo da biblioteca do Inhotim.

 

Instalado na Galeria Mata, o Segundo Ato do projeto, realizado, assim como o Primeiro Ato, em curadoria conjunta entre Inhotim e IPEAFRO, aborda o Teatro Experimental do Negro, movimento encabeçado por Abdias Nascimento, e que está nas origens do Museu de Arte Negra.

 

As inaugurações são parte do Território Específico, eixo de pesquisa que norteia a programação do Instituto no biênio de 2021 e 2022, pensada para debater e refletir a função da arte nos territórios a níveis local e global, e também a relação das instituições com seu entorno, mirando os desdobramentos de um museu e jardim botânico como o Inhotim.

Confira a seguir mais detalhes da programação. 
Galeria Praça | Isaac Julien
Em um trabalho que une poesia e imagem, Isaac Julien parte de uma exploração lírica sobre o mundo privado do poeta, ativista social, romancista, dramaturgo e colunista afro-americano Langston Hughes (1902 – 1967) e seus colegas artistas e escritores negros que formaram o Renascimento do Harlem — movimento cultural baseado nas expressões culturais afro-americanas que ocorreu ao longo da década de 1920.

 

Isaac Julien. Stars (Looking for Langston Vintage Series), 1989/2017. Cortesia do artista e de Victoria Miro.
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A obra foi dirigida por Julien na época em que era membro da Sankofa Film and Video Collective, e contou com assistência do crítico de cinema e curador Mark Nash, que trabalhou no arquivo original e pesquisa cinematográfica.

 

Looking for Langston também é considerado um trabalho fundamental para estudos afro-americanos e, nos últimos 30 anos, tem sido amplamente apresentado em universidades, faculdades e escolas de arte norte-americanas.

 

“Em 1954, Langston Hughes trocou correspondências com Abdias Nascimento, autorizando o Teatro Experimental do Negro a encenar suas peças. Nesse sentido, tanto Hughes, Abdias e Isaac Julien, cada um à sua época, buscavam representatividade e reconhecimento da produção artística e intelectual negra”, diz Julieta González, diretora artística do Inhotim.

 

A investigação sobre personalidades proeminentes do século 20, como Langston, é uma constante na obra de Isaac Julien. O artista se debruça sobre a vida destas figuras a fim de revisitar as narrativas históricas oficiais.

 

Nome seminal da arte contemporânea, Julien nasceu em 1960 em Londres, onde vive e trabalha, e utiliza em sua obra elementos provenientes de disciplinas e práticas variadas, como o cinema, a fotografia, a dança, a música, o teatro, a pintura e a escultura, integrando-os em instalações audiovisuais, obras fotográficas e documentários.

 

Acervo em Movimento | Arjan Martins e Laura Belém

 

São latentes nas obras de Arjan Martins conceitos sobre migrações e outros deslocamentos de corpos e presenças entre espaços de luta e poder, e ainda as diásporas e os movimentos coloniais que se deram em territórios afro-atlânticos.

 

Na instalação de Birutas (2021) – apresentada no caminho entre a obra Piscina (2009), de Jorge Macchi e A origem da obra de arte (2002), de Marilá Dardot – Arjan expõe aparelhos destinados a indicar a direção dos ventos, que se fundem às bandeiras marítimas e seus códigos internacionais para transmitir mensagens entre embarcações e portos.

 

Arjan Martins, Instalação de birutas, 2021. Foto: cortesia do artista e da galeria A Gentil Carioca
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“Na fusão desses dois elementos, birutas e bandeiras náuticas, Arjan trata do trânsito de corpos através dos oceanos, do tráfico de pessoas escravizadas e das diásporas causadas pelos movimentos coloniais”, explica Douglas de Freitas, curador do Inhotim.

 

No lago entre as Galerias Mata e True Rouge, o visitante vai se deparar com dois barcos a remo equipados com holofotes que se iluminam, frente a frente, na água. As luzes de um dos barcos se acendem, enquanto as do outro permanecem apagadas. Após 20 segundos, eles invertem: o que estava aceso agora se apaga, e o que estava apagado se acende. As luzes de ambos os barcos são então acesas simultaneamente e, ao final, todas se apagam até o ciclo se reiniciar automaticamente. Trata-se de Enamorados (2004), trabalho da artista mineira Laura Belém, exposto pela primeira vez em 2004 na lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, e no ano seguinte na 51ª Bienal de Veneza.

 

“A ideia de ciclos, passagem de tempo e certa teatralidade fantástica são elementos recorrentes na produção da artista. Em Enamorados, agora instalada no lago em frente à Galeria True Rouge, esses elementos se apresentam para construir uma narrativa de flerte, onde dois corpos acenam um ao outro, se iluminam e se apagam, se comunicam silenciosamente sem nunca se tocar”, reflete Freitas.

Laura Belém, Enamorados, 2004. Foto: Pedro Motta
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O Acervo em Movimento nasce do desejo do Inhotim em se manter como um lugar vivo, em constante transformação, trazendo ao público as novas aquisições do acervo.

 

Inhotim Biblioteca | Jaime Lauriano

 

A pesquisa de Jaime Lauriano, artista paulistano que vive entre São Paulo e Lisboa,  busca trazer à superfície traumas históricos relegados ao passado e aos arquivos confinados, em propostas de revisão e reelaboração coletiva da História. Marcando a estreia do Inhotim Biblioteca, o artista apresenta uma ocupação de ativação na biblioteca do Instituto,  estabelecendo diálogo com o Segundo Ato de Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra — projeto realizado pelo Inhotim em parceria com IPEAFRO, em cartaz na Galeria Mata.

 

“A proposta é procurar imaginar bibliotecas possíveis e como uma biblioteca pode se desdobrar”, conta Julieta González. “E a ocupação é um jeito de ativá-la, além de ser um recurso para pensar a relação com comunidades locais”, completa.

 

O Inhotim Biblioteca trará ao público um espaço coletivo e aberto voltado à leitura a partir de um recorte bibliográfico, visual e sonora proposta por Jaime Lauriano, afim de construir uma coleção voltada ao pensamento pan-africanista.

 

Para além de trazer exposições e disponibilizar material para pesquisa, o programa irá promover leituras mediadas e encontros entre artistas e pesquisadores com o público.

 

Galeria Mata | Segundo Ato de Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra

 

Em curadoria conjunta com o IPEAFRO (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros), o Inhotim sedia um museu dentro de seu espaço e traz, ao longo de dois anos, a iniciativa sonhada por Abdias Nascimento (1914-2011) no início da década de 1950: o Museu de Arte Negra.

 

O projeto parte do legado multidisciplinar de Abdias, poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico, professor universitário, pan-africanista e parlamentar com uma longa trajetória trilhada no ativismo e na luta contra o racismo. Apresentado em quatro atos — quatro exposições temporárias, renovadas a cada cinco meses -, a realização do projeto no Inhotim se constrói com base nos aspectos de quatro Orixás, presenças constantes nas pinturas do artista, e na história e desdobramentos do Museu.

 

Sob o signo de Oxóssi, guardião das matas e Orixá do trono do conhecimento, o Segundo Ato do projeto, intitulado Dramas para negros e prólogo para brancos, abarca um período marcado pelo teatro na formação artística e política de Abdias Nascimento, e na concepção inicial da coleção do Museu de Arte Negra, de 1941 até 1968 – ano em que Abdias iniciou o exílio nos Estados Unidos e na Nigéria.

Exibida na Galeria Mata, a mostra aborda o Teatro Experimental do Negro (TEN), uma iniciativa da qual nasceu o Museu de Arte Negra. Criado por Abdias Nascimento em 1944, no Rio de Janeiro, o TEN tinha como propósito central conquistar espaço para pessoas negras nas artes cênicas.

A exposição traz ao público documentos sobre a trajetória do Teatro Experimental do Negro, pinturas de Abdias e trabalhos de artistas como Anna Bella Geiger, Heitor dos Prazeres, Iara Rosa, José Heitor da Silva, Sebastião Januário, Octávio Araújo e Yêdamaria, que integram a coleção do Museu de Arte Negra do IPEAFRO.

 

Abdias Nascimento, A flecha do Guerreiro Ramos: Oxóssi, 1971. Coleção Museu de Arte Negra – IPEAFRO | Inimá de Paula, Retrato de Abdias Nascimento Filho, Rio de Janeiro, 1967. Coleção Museu de Arte Negra – IPEAFRO | Emanoel Araújo, Mulher com frutas na cabeça,1966. Coleção Museu de Arte Negra – IPEAFRO
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Em oito núcleos temporais (1941 — Viagem América Latina / 1943 – Teatro do Sentenciado / 1944 – Teatro Experimental do Negro / 1950 – 1º Congresso do Negro Brasileiro / 1955 – Cristo Negro / 1968 – MAN no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro / 1966 – Festival Mundial das Artes Negras, Dacar –  Senegal / 1968 – Exílio), o Segundo Ato apresenta uma ampla pesquisa documental e propõe um novo olhar para a coleção Museu de Arte Negra, hoje sob a guarda do IPEAFRO. O foco é a importância da coleção enquanto ferramenta para a valorização e o reconhecimento dos valores  ancestrais africanos na sociedade brasileira.

 

José Medeiros, Heloísa Hertã e Matilde Gomes (filhas de santos), 1957. Acervo Abdias Nascimento — IPEAFRO

As atividades do Teatro Experimental do Negro perduraram até 1968 e foi dentro de uma delas, o 1º Congresso do Negro Brasileiro, realizado na cidade do Rio de Janeiro em 1950, que surgiu o projeto Museu de Arte Negra.

Segundo Elisa Larkin Nascimento, escritora, curadora e diretora do IPEAFRO , “para contar a história de Abdias Nascimento e das organizações que ele fundou, entre elas o Museu de Arte Negra, é imprescindível recorrer ao acervo que o artista deixou e que nós do IPEAFRO temos a missão de zelar, organizar e difundir. O Segundo Ato acerta ao propor esse diálogo entre os documentos de acervo, as pinturas de Abdias Nascimento e as obras artísticas reunidas na coleção Museu de Arte Negra do IPEAFRO. Assim, conseguimos mostrar a dimensão política da arte e da abordagem curatorial propostas e realizadas por Abdias Nascimento no projeto Museu de Arte Negra. Para ele – e de acordo com a tradição filosófica e o modo de viver ancestral africana -, a arte faz parte da vida em comunidade, integra as relações humanas e a interação do ser humano com o ambiente, o planeta e o cosmos. Ela se relaciona obrigatoriamente com a política, que informa e molda essas relações. Não existe, nessa tradição, a arte pela arte, produção meramente de objetos monetizados. Para esse artista e seu povo, a arte é parte integral da sociedade e se relaciona profundamente com o cotidiano, a vida e o amor”.

“A pintura de Abdias Nascimento remete às origens de sua formação como artista e intelectual, que se dá a partir dos anos 1930. Primeiro no teatro, atuando e dirigindo. Depois, como curador do Museu de Arte Negra. Passa por sua intensa pesquisa e troca com artistas e intelectuais dentro e fora do mundo negro. Quando começa a pintar no Rio de Janeiro, em 1968, e intensifica a sua produção no exílio, Abdias Nascimento rapidamente manifesta uma técnica refinada que, aliado ao seu axé verbal, amplia a ressonância de seu discurso político de valorização da matriz africana no mundo e denúncia do genocídio do negro brasileiro, causas que pautaram a sua vida e obra”, explica Julio Menezes Silva, jornalista, curador e pesquisador do IPEAFRO.
Informações gerais:

Inauguração da programação Território Específico 2022

– Galeria Praça
Looking for Langston, individual de Isaac Julien

– Acervo em Movimento
Obras de Arjan Martins e Laura Belém

– Inhotim Biblioteca
Ocupação de Jaime Lauriano
– Galeria Mata
Segundo Ato de Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra: Dramas para negros e prólogo para brancos

Abertura: 28 de maio, sábado, das 9h30h às 17h30
Funcionamento Inhotim
Horários de visitação: de quarta a sexta-feira, das 9h30 às 16h30, e aos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30

Entrada R$ 44 inteira (meia-entrada válida para estudantes identificados, maiores de 60 anos e parceiros). Crianças de até cinco anos não pagam entrada.
Localização: O Inhotim está localizado no município de Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte (aproximadamente 1h15 de viagem). Acesso pelo km 500 da BR381 — sentido BH/SP. Também é possível chegar ao Inhotim também pela BR-040 (aproximadamente 1h30 de  viagem). Acesso pela BR-040 – sentido BH/Rio, na altura da entrada para o Retiro do Chalé.
Opções de transporte regular: Transfer — a Belvitur, agência oficial de turismo e eventos do Inhotim, oferece transporte aos sábados, domingos e feriados, partindo do hotel Holiday Inn Belo Horizonte Savassi( Rua Professor Moraes, 600, Funcionários, Belo Horizonte). É preciso comparecer 15 minutos antes para o procedimento de embarque e conferência do voucher.

Horário de saída do hotel: 8h (duração estimada da viagem: 1h30)
Horário de retorno: 17h30 (final de semana/feriado), na saída do estacionamento do Inhotim.

Valor: R$ 95,00 (ida e volta)

Contatos: 31 3290-9180; inhotim@belvitur.com.br

Veja mais informações sobre o transfer clicando aqui

Ônibus Saritur — saída da Rodoviária de Belo Horizonte de terça a domingo, às 8h15 e retorno às 16h30 durante a semana e 17h30 aos fins de semana e feriados. R$ 41,50 (ida) e R$ 37,15 (volta).
Loja

A loja do Inhotim, localizada na entrada do Instituto, oferece itens de decoração, utilitários, livros, brinquedos, peças de cerâmica, vasos, plantas e produtos da culinária típica regional, além da linha institucional do Parque. É possível adquirir os produtos também por meio da loja online.

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