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Inhotim ainda mais espetacular

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O que há de novo para dizer sobre Inhotim que ninguém tenha dito antes? Ainda estou para ler algum relato sóbrio — que dirá decepcionado. A reação parece ser uma só: visitou, deslumbrou. Todo mundo vai com expectativas altíssimas criadas por visitantes anteriores, e ainda assim consegue sair maravilhado.

Talvez isso aconteça porque Inhotim não se entrega totalmente por imagens. A visita a Inhotim é indescritível, na acepção mais literal da palavra. Você pode até achar que já viu isso antes — um jardim de esculturas, um museu dentro de um parque — mas a dimensão do lugar, e a relação das obras com o espaço, fazem da visita a Inhotim uma experiência singular.

Outro fator que certamente contribui para você não sofrer uma indigestão cerebral — e aqui tenho certeza de não estar falando besteira — é a existência de um respiro na sua visita entre uma obra e outra. No caminho entre uma galeria e a próxima você descansa a vista e a cabeça admirando o paisagismo (e o mato!) de Inhotim. Dá tempo de refletir, digerir e ficar com vontade de entrar na próxima.

Me belisca: tamo mesmo no Brasil?

Galeria de Doug Aitken no Inhotim

Não vou destacar obras, porque sei que não vi algumas das mais bacanas. (Minha visita foi feita na carona de uma press trip para mostrar as novidades 2016 a jornalistas de arte e cultura, então não deu tempo de conferir muitas das obras emblemáticas do Inhotim.) Acho mais importante dizer que, se você puder, estenda a sua visita em mais um dia. Ou fique com mais uma desculpa para voltar o mais breve possível a Belo Horizonte.

Por Marcela Vilas Boas / Fotos Eduardo Gontijo/Rogério Alves Dias

A grande expectativa para as novas mostras é o pavilhão Olafur Eliasson, que desenvolve um trabalho ‘site-specific’ intitulado ‘Belo Horizonte Expectations’ (2007-2014). O artista dinamarquês já possui outros trabalhos no museu mas, desta vez, trata-se de um prédio-obra projetado por ele em forma circular e que joga com a luz natural captada fora do edifício.

Já a fotógrafa Claudia Andujar, uma das mais conhecidas e respeitadas fotógrafas do cenário brasileiro, terá mais de 500 fotografias expostas em um novo pavilhão, com mais de 1500 m², integrado com a paisagem. O acervo contará com imagens da coleção “Marcados”, das décadas de 70 e 80, quando a artista fotografou tribos indígenas da Amazônia pela primeira vez — e também fotos recentes da última viagem da repórter à fronteira da Venezuela.

Para os próximos anos, já está planejada a construção de outros dois importantes espaços, desta vez dedicados a Ernesto Neto e Anish Kapoor.

Mais novidades

Também em setembro será aberta a exposição permanente do norte-americano Carroll Dunham, com cinco pinturas feitas especialmente para o Instituto Inhotim. As obras estarão expostas em uma antiga casa de fazenda localizada no parque e especialmente restaurada para abrigar a série. A belíssima Galeria Lago também está passando por reformulações para receber as obras de Dominik Lang, Geta Bratescu e David Medalla.

Imagens humanistas e a luz como protagonista

Não se pode falar de Claudia Andujar sem relacionar seu nome com a etnia Yanomami. A fotógrafa suíça de 82 anos entrou no Brasil em 1957 depois viver nos Estados Unidos no pós-guerra. Sua relação com a comunidade indígena começou um pouco por acaso, em uma viagem pela Amazônia para registrar a vida na selva para a revista Realidade. O que deveria ser uma reportagem fotográfica mudou o rumo da sua vida e de seu trabalho.

Bastaram os primeiros cliques para que a jornalista se apaixonasse pela cultura daquele povo e decidisse lutar por seus direitos e voz. Na época, o governo construía a Perimetral Norte e centenas de indígenas foram dizimados pelas doenças levadas pelos brancos. A relação com as tribos se tornou tão intensa que, no final dos anos 1970, Claudia deixou o jornalismo para dedicar-se ao trabalho autoral e lutar pela criação do Parque Yanomami.

A artista conta que seu trabalho Marcados, que retrata o sofrimento dos índios com a invasão de suas terras, tem forte ligação com os horrores que presenciou durante sua infância na Hungria, na Segunda Guerra Mundial. Na época, ela perdeu grande parte da sua família, incluindo seu pai, em campos de extermínio nazistas.

Claudia é autora dos livros Bicos World, EUA, 1958The AmazonHolanda1973;

Olafur Eliasson

O dinamarquês Olafur Eliasson é um dos mais importantes artistas contemporâneos. De origens islandesas, estudou na Academia de Arte de Berlim, cidade que hoje abriga seu estúdio. Olafur é conhecido internacionalmente por criar espaços onde a luz é a grande protagonista. Seu trabalho sempre está relacionado com elementos da natureza e muitos conceitos arquitetônicos, capazes de hipnotizar os espectadores das obras.

Olafur brinca com a percepção das pessoas dos fenômenos naturais — seja o vento, a neblina ou a água — com muita tecnologia e um olhar especial ao ecológico e sustentável, muitas vezes relacionado com as paisagens nórdicas que tanto influenciam o autor. Outra característica dos trabalhos é a utilização de vidros coloridos e diversos objetos espelhados que colocam o público dentro da obra.

Suas obras são construídas especialmente para os ambientes onde serão expostas e com estreito vínculo com a natureza que rodeia tais locais. Já teve instalações construídas no Tate Modern de Londres, no Central Park de Nova Iorque e, agora, também estará no Inhotim.

Lembranças como rajadas de vento

Foram muitos anos longe do Brasil, de Minas Gerais. Sem tropeiro e sem montanhas. Voltar pra casa significa reencontrar lembranças que já se acreditavam perdidas no tempo, borradas, desfocadas. Lembranças que surgem como uma rajada de vento que não se espera. Aparecem ao sentir o cheiro doce de uma fruta antes preferida ou o sotaque de uma senhora no ponto do ônibus que nunca chega. Quando o sol queima com vontade a pele agora pálida por um longo inverno europeu é que reconheço que sim, estou em casa.

Minha casa já não é a mesma. Belo Horizonte já não parece a cidade que deixei pra trás, não tem a mesma cor e caminha em outra velocidade, quase em câmera lenta. Rever o que parecia esquecido é emocionante. Mas conhecer o novo quando eu supunha que já sabia tudo de cor foi ainda melhor. Assim entrei no Inhotim, com alguns anos de atraso. Conhecia o Instituto por uma matéria belíssima publicada no espanhol “El País” e esperava ansiosa a oportunidade de visitar o parque, museu ou seja lá o que é aquilo que já faz parte do roteiro cultural, natural e turístico da minha região.

O vermelho que insiste em manchar o caminho que leva a Inhotim me assegura que estou na minha terra, repleta de minério. Entrar no parque já me transportou a outro mundo. O céu não ajudava muito e um cinza tímido teimava em ameaçar chuva em pleno outono. Ainda assim, não há nuvem capaz de limitar a maravilha do local. Cada jardim, cada detalhe é, por si só, uma obra de arte.

A imensidão do parque pode cansar pernas mais desavisadas, mas a exuberância do local já merece o passeio. E, como se não bastasse, cada caminho revela mais beleza. Qualquer rota leva a uma nova descoberta, seja no incrível paisagismo, seja nas obras espalhadas pelos gramados ou protegidas em galerias.

Inhotim é único, diferente de tudo aquilo que pude admirar em tantos países europeus. Cada parque ou museu que conheci mundo afora tem sua magia, é claro. No entanto, nada se compara à simbiose entre arquitetura, natureza e arte que se vê ali. Um espetáculo completo.

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