JORNAL DE MINAS: UM CADINHO DEMOCRÁTICO EM PLENA DITADURA

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Quase 50 anos depois da criação do “Jornal de Minas”, jornalistas lançam livro sobre a experiência de vida naquela Redação que, em pleno regime militar, publicava matérias críticas e possibilitava uma sociabilidade mais que amigável: Jornal de Minashistórias que ninguém leu, pela Páginas Editora. O lançamento será em 8 de junho, no Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais (Avenida Álvares Cabral, 400, Centro, Belo Horizonte), a partir das 19 horas.

O livro reúne depoimentos de 34 jornalistas que passaram por sua Redação e se lembram dela de maneira diversa: para alguns, uma “sucursal do inferno”, onde a direção apoiava o regime militar, com salários “raros e escassos” e cães ameaçadores; para outros, uma publicação em que a liberdade de expressão era grande, apesar do contexto dos “anos de chumbo”. Outros ainda, de maneira crítica, descrevem o jornal daquela época como “mambembe” – mal feito, mal impresso. Todos, porém, são unânimes em reconhecer que ali se exerceu uma sociabilidade que ficou na memória: laços afetivos que duram até hoje, amizades, namoros, casamentos.

O livro traz também uma entrevista recente com o ex-proprietário do jornal Afonso de Araújo Paulino, na qual ele responde a questões como suas ligações com o regime militar e até acusações de ter praticado tortura.

HISTÓRIA

O “Jornal de Minas” tem origem no antigo “O Diário”, órgão de imprensa de orientação católica, criado em 1935, mantido pela Arquidiocese de BH e que sobreviveu até 1972, quando foi comprado por um grupo de empresários de ideologias diversas. Entre eles, Afonso de Araújo Paulino, empresário – entre outras atividades – do setor de exploração de pedras preciosas, que assumiu a direção do jornal em 1973. Começava ali um período de uma Redação inquieta, com grandes diferenças ideológicas, mas convivência harmônica, sob controle do big boss Afonso Paulino, o Minhoca, ex-jogador da seleção brasileira de futebol de salão (posteriormente presidente do Clube Atlético Mineiro) e, notoriamente, apoiador do regime militar de 1964.

O jornal tinha, como afirmou Manoel Hygino no prefácio, uma certa continuidade de linha editorial com o antigo “O Diário”: era moderno, cristão e anticomunista. Ao mesmo tempo, cultivava um nacionalismo que, em momentos exacerbados, o fazia publicar manchetes com termos como “minério a preço de bosta de boi”, contra os preços de mercado do minério de ferro mineiro. O JM conduziu também uma longa campanha contra a MBR, por sua devastação das montanhas de Minas, na região de Nova Lima, e criticou duramente as indústrias de cimento Itaú pela poluição que afetava a saúde dos moradores de Contagem. E publicava matérias de cunho feminista e comportamental com posições mais que liberais.

O jornalismo do JM era praticado por profissionais como Euro Arantes (que comandava, de dentro da Redação, também a sucursal da “Tribuna da Imprensa”, o jornal mais incisivamente crítico à ditadura militar) e muitos estagiários (talentos que mais tarde se destacaram na imprensa nacional e assessorias de comunicação, como Beth Cataldo e Charles Magno, bem como se tornaram cartunistas e escritores como Nani, Aroeira, Luiz Fernando Emediato e Carlos Herculano Lopes). Uma Redação com salário “escasso e raro”, como lembra um dos depoimentos, negociado por vales semanais, alimentos e material de limpeza de um mercadinho, também de Afonso Paulino, que ficava ao lado do jornal, na Avenida Francisco Sales, 536, bairro Floresta.

Em suas mais de 200 páginas, incluindo fotos, o livro conta a experiência vivida naquela Redação, em uma ditadura militar que matava, torturava e desaparecia com as pessoas. Os casos relatados nos depoimentos muitas vezes reverberam entre si, mostrando o contexto da vida brasileira naquela época. Um dos depoimentos, por exemplo, conta a “tortura institucionalizada”, quando relata o convite de um delegado para que o repórter presenciasse como funcionava uma sessão de pau de arara. Outro relembra o pavor da convivência forçada com cães na Redação e com criminosos sentenciados que o dono do jornal mantinha sob sua proteção e responsabilidade, como o famigerado Zeca Diabo, supostamente com mais de 50 mortes no currículo.

Mas o convívio era também alegre e fraternal entre jornalistas, estagiários e outros funcionários do jornal, como a dona Maura, responsável pela cantina e que fornecia mais de 100 refeições por dia. Ou o famoso jornaleiro Sapo, conhecido nas noites de Belo Horizonte por seu vozeirão a gritar manchetes inusitadas.

Para muitos, a contradição ideológica presente na Redação (havia comunistas clandestinos, liberais e apoiadores do regime) explodiu por ocasião do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, após sessão de tortura no DOI-Codi, em São Paulo. Uma semana depois, em 1º de novembro, o jornal publicou editorial de primeira página inteira (o que nunca foi comum na imprensa), com o título “Aos verdadeiros brasileiros”, em que apoiava o regime militar e atribuía o suposto suicídio do jornalista (versão do governo) à possibilidade de futura pressão de companheiros de esquerda. Parte da Redação pediu demissão e criou, meses depois, o “De Fato”jornal da imprensa alternativa, crítica da ditadura. O livro publica um fac-símile do editorial, uma peça histórica para pesquisas sobre a imprensa brasileira.

Na entrevista com Afonso Paulino, um grupo de jornalistas levantou com total liberdade todas as questões que assombravam a equipe há quase 50 anos. O empresário, hoje com 81 anos, mais uma vez não censurou nem limitou as perguntas, inclusive as mais delicadas, como as que se referem a seu apoio ao regime militar e a acusações de tortura. E respondeu a todas as questões, no seu estilo.

Começava ali, na publicação do malfadado editorial, uma outra história. O JM acabaria em 1988, já sem expressão alguma no cenário mineiro. Mas o curto período de liberdade editorial ficaria à espera de uma reflexão, que começa a acontecer agora com a publicação do livro.

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