Enfim sós

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1960

Por Marina Jacob

As fotos de Renata e Marco nas redes sociais aproveitando festas e comemorações me davam satisfação! Estava eu lá olhando o facebook, fazendo comentários, rindo e vi a página da minha amiga cheia de fotos com seu amor. Brindes, cachoeiras, aniversários, churrascos, mensagens de amor e o noivado anunciado. Renata está feliz, ela merece. Depois das decepções no primeiro casamento, como era bom vê-la reluzente! Pelo menos uma filha maravilhosa o homem lhe deu. Lembro como ela se entristeceu quando tudo acabou entre bebedeiras e maus-tratos. Mesmo assim durou anos.

Na verdade, nem sei a causa certa real do término, mas foi ele que se afastou. Era visível que Renata não amava, venerava, queria bebê-lo, colocá-lo dentro de uma cesta, da boca, do útero. Realizava tarefas da casa, cozinhava com primor pratos novos. Eu às vezes até queria chegar aos pés dela neste sentido. Nunca tive habilidades na cozinha ou em limpeza, também nunca fiz tanta questão. Mas admirava!

Após o romance acabar nós duas saíamos para beber. Eu sempre com uma vodka; ela, cerveja. Um dia, ríamos por causa de um par de tênis jogado num fio elétrico.

– Eu devia ter jogado aquele traste do meu ex-marido fora, igual aquele par de tênis ali em cima! Pra pegar sol, chuva, trovoadas e um belo choque, se possível! — Renata ria até doer a barriga. Até que uma colega apareceu e nos convidou para participar de um grupo do whats’ app, de solteiros.

– Uau! Agora é minha vez! Esse grupo é pra mim! Me adiciona ai!

Foi aí que minha colega se abriu, renovou amizades e conversas, saiu da concha. Vez ou outra se reuniam em churrascos, bares. Povo animado aquele! Bebiam até rachar, trocavam os pares românticos. E aí ela conheceu o Marco, tudo bem rápido, intenso, regado álcool, rock e tudo mais. Ele parecia sempre sorridente, cantando, contando piadas e histórias. Ele era engraçado mesmo. Ao mesmo tempo parecia o melhor, o líder do grupo, o mais articulado, pra frente. Tinha um jeito meio estabanado de andar, mancava e ria sozinho. Eu olhava aquilo e ria também.

Com o tempo, eu e Renata fomos nos distanciando. Sinto saudades de nosso papo, nossas risadas. Saímos poucas vezes juntas após o relacionamento deles. Ela de fato se distanciou de vários colegas para viver o amor. Eu a via mais no Face e comunicava através de curtidas, comentários rápidos. Ela estava feliz e isto me alegreva.

Numa certa noite de chuva, de repente, meu telefone toca, era Renata.

– Ei, Ana! Faz tanto tempo que a gente não se vê! Vamos sair hoje! Estou precisando…

Com seu tubinho preto, o colar dourado em formato de sol, a bolsa reluzente, Renata entrou no carro ansiosa e dizendo que precisava distrair. Já chegou agitada, alegre.

– Tô cansada das mesmas coisas. O Marco não me entende…

Sombras espalhadas por todo espaço do bar, altas, baixas, frenéticas outras estáticas. Ela já foi pedindo sua dose de vodka acompanhada de morango. O anel de noivado avantajado reluzia naquela atmosfera escura rodeada de música. Renata bebia, levava o dedo à boca, comia um pedacinho do morango, sorria sozinha, jogava o corpo pra lá e pra cá, os braços pra cima e pra baixo. Tudo nela cintilava uma ardente e desesperadora alegria, libertação. Eu a olhava naquele movimento agitado, sua vibe era alta, sua explosão de ânimo me atingiu e me pus de pé a dançar também. Suspendemos nossas taças e brindamos.

– Tira foto nossa, agora! Posta no face nossa selvagem parceria se reencontrando, finalmente! Mostra a localização: Aquarius bar.

Eu quis persuadi-la a parar, mas ela parecia explodir naquela embriaguez. Tomava sua dose e dançava inquietamente. Ela queria esquecer de si? Dos outros? Virar um pássaro? Do outro lado, um olhar a penetrava em seu furor dançante. Encarava-a fixamente, até se aproximar de nós e de repente abraçar sua cintura.

– Vamos brindar, Renata, nosso encontro!

Ao levantarmos as taças o sujeito apareceu por trás saindo na foto também. Renata adorou e imediatamente jogou a foto nas suas redes. — Eu cansei! Chega de servidão. Viva a liberdade!

Marco, do seu apartamento, viu a cena pelo próprio face, chegou estonteante ao bar, como um tornado.

– Tá vendo, Renata! Como você mente! Cansei de você! — Marco atirou as taças de bebida no chão, esmurrou a mesa e saiu gritando. — E não volte mais, não insista mais como uma cachorra me chamando lá em casa! Suma!

– Liberdade! Sou livre, senhor crápula!

Eu olhava aquela cena com a surpresa de uma criança vendo adultos brigarem. Não entendi nada e nem quis, mas senti que ali estava qualquer coisa de uma vingança desesperada, uma dor que virou primavera, flor, solta ao público, inevitavelmente compartilhada, assim como aquelas fotos no face. Restou-nos continuar a dançar, cantar e rir aterrorizadas!

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