Morador do Complexo do Alemão cria cerveja própria e implanta nova cultura na favela

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Marcelo perdeu as contas de quantas vezes foi chamado de louco quando decidiu abrir um bistrô de cervejas no Complexo do Alemão. Era 2012 e o conjunto de favelas do Rio de Janeiro dava os primeiros passos numa pacificação que até hoje é complicada. Não é que o negócio deu certo? Três anos depois, ele passou de 40 para 300 rótulos à venda, criou sua própria marca e, o mais interessante, mudou a cultura local. Hoje, 80% dos clientes são moradores da comunidade que aprenderam a conhecer e apreciar cerveja.

Até dar certo, porém, parecia mesmo uma loucura. Marcelo Ramos, 41 anos, ouviu repetidamente as mesmas perguntas antes de abrir as portas: O que é um bistrô? Cerveja não é tudo igual? Você acha mesmo que isso vai dar certo aqui? Ele encarou as dúvidas e lançou o Bistrô Estação R&R dentro da Nova Brasília, uma das favelas do complexo. Quer dizer, nem inauguração teve. Uma mulher o viu arrumando o local – que até então era uma garagem da família para guardar entulhos – e pediu uma cerveja. Foi a cliente número um.

Somada à pacificação que já atraia o interesse estrangeiro, o turista brasileiro engrossava as filas no Alemão atrás do sucesso da novela Salve Jorge, da Globo. Sem falar uma palavra em inglês, atendia os gringos na base da mímica e com o sorriso no rosto que é sua marca registrada: Weiss? Pilsen? Ale? “Eu queria aproveitar a onda de Copa e Olimpíada. Foi um risco enorme. Mas pensei: se ninguém comprar minhas cervejas, eu mesmo bebo”, brinca Marcelo, que sempre teve o apoio da esposa, Gabriela Romualdo.

No começo, os moradores torceram o nariz. Acharam que o lugar era “metido” demais pra eles, afinal lá você encontra rótulos que vão de R$ 10 a R$ 250. A casa, de fato, derruba os estereótipos de um bar de favela. Decoração caprichada, iluminação bacana, pratos bonitos e música ao vivo com clássicos da MPB. Você jura que está em qualquer bairro nobre do Brasil. O funk rola na esquina, claro, mas nem por isso os estilos se chocam. Aos poucos os clientes locais foram chegando. E Marcelo passava de mesa em mesa explicando sobre cerveja, levando ingredientes, como lúpulo e cevada. Até hoje, ele tem esse hábito de ensinar o jeito certo de beber para apreciar o sabor.

“Eu consegui criar uma cultura cervejeira na favela. As pessoas passaram a provar outros tipos, aos poucos foram entendendo mais”. Morador do Complexo do Alemão há 16 anos, o guia turístico Cleber Araújo, 39, está no pelotão de primeiros clientes. Até então, para ele cerveja era tudo igual. “Eu aprendi e conheci sobre cerveja aqui. As pessoas da favela descobriram que esse lugar também é pra elas. O morador passou a apreciar a cerveja graças ao Marcelo”, elogia Cleber.

Foi no bistrô do Alemão que o engenheiro mecânico Thiago Sousa, 27, conheceu seu estilo preferido da bebida, a IPA (India Pale Ale). “Eu não sabia quase nada. Aprendi aqui que na IPA o destaque é o lúpulo, o que eu adoro por causa do aroma”, conta Thiago, que sempre leva amigos para conhecer o espaço. “O Marcelo é tão legal que até indica outros bares temáticos para quem quer aprender mais”.
De técnico em telefonia à especialista em cerveja

Marcelo entrou no mundo da cerveja há oito anos. Começou a provar uma e outra quando fazia atendimentos como técnico de telefonia em bares. Um dia levou a mulher numa casa especializada e lá resolveu que queria mergulhar no assunto. “Quando decidi abrir o bistrô, comecei a fazer cursos de sommelier, entrar em grupos cervejeiros, ler tudo. Sou um curioso”. Foi embalado pela curiosidade que criou sua marca de cerveja, que leva o nome Complexo do Alemão, uma Lager Premium. “Eu fui conversando com amigos, fazendo testes, até chegar à fórmula atual. Queria uma cerveja em que o sabor não fosse impactante demais para o pessoal da comunidade. E conseguimos”.

Com a empresa crescendo, Marcelo inaugurou uma filial recentemente no Carioca Shopping e planeja lançar uma cerveja Weiss. Quer levar o nome do Complexo do Alemão para outros lugares, mas jamais vai sair da favela, afinal agora a favela também sabe apreciar cerveja.

bb

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